quarta-feira, 22 de maio de 2013

Francisco Louçã: “estamos muito perto da 2ª Grande Depressão” - Por Marco Weissheimer

Situação dos trabalhadores em vários países da Europa é dramática, disse o economista e político português.

Foto Mario Pepo
A crise econômico-financeira iniciada a partir do estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos e do naufrágio do mercado de derivativos que inundou o sistema circulatório monetário do planeta com moedas e títulos tóxicos, sem lastro na vida real, tem um caráter estrutural e está longe do fim. Pelo contrário, dá sinais de agravamento que poderão arrastar a economia mundial para uma segunda grande depressão. O alerta foi feito terça-feira (21) à noite, no Sindicato do Bancários de Porto Alegre, pelo político e economista português Francisco Louçã, em um debate sobre a crise do capitalismo na Europa, promovido pelos mandatos do deputado estadual Raul Pont e da vereadora Sofia Cavedon, do PT.

Durante mais de uma hora e meia, Louçã, que é dirigente do Bloco de Esquerda, de Portugal, falou sobre a realidade dramática vivida hoje pela população de países como Grécia, Portugal e Espanha, com altíssimos níveis de desemprego, corte de salários, diminuição das aposentadorias, desmonte de serviços públicos fundamentais e aumento de impostos. A crise, defendeu Louçã, é estrutura e permanente, ao contrário do que afirma o consenso firmado entre a social-democracia e a direita na Europa. Estamos vivendo hoje, acrescentou, o império de uma economia sombra que implica, por sua vez, a existência de uma política sombra e de uma sociedade sombra.

A economia sombra é dominada por uma finança sombra, não visível e não regulada. Louçã apontou algumas características desse sistema. No auge da crise de 2007-2008, algumas companhias de seguro já tinham mais poder que grandes bancos comerciais, em função do mercado de derivativos. Cinco anos antes do início da crise de 2007-2008, o conjunto do mercado invisível dos derivativos era de 200 trilhões de dólares. Em 2007-2008, pulou para 600 trilhões de dólares. Naquele período, centenas de bancos nos Estados Unidos e na Europa foram à falência. Agora, em maio de 2013, o conjunto desse mercado de títulos derivativos está na casa do um quatrilhão de dólares, o que representa 14 vezes mais de todo o produto criado no planeta Terra, e 65 vezes mais que o valor do maior mercado especulativo do mundo, que é o de Nova York. Ou seja, ilustrou ainda Louçã, cada dólar americano vale hoje 65 vezes menos que o dólar desse mercado sombra.

A banca financeira, tal como a conhecemos hoje, é dominada por um sistema de dívidas que está asfixiando trabalhadores, governos e as sociedades de vários países. Francisco Louçã chama esse sistema de “dívidadura”. Em um livro escrito em conjunto com Mariana Mortágua (A dívidadura – Portugal na crise do euro (Ed. Bertrand), o economista escreve sobre esse sistema de dívidas:

Imagem web
“Portugal pagará em 2012, em juros, mais do que o efeito conjugado de todas as medidas de uma austeridade gravíssima neste ano. Nos dez anos seguintes, o compromisso de amortização da dívida, considerando apenas a hoje existente e nenhum outro empréstimo suplementar ou outra emissão de dívida, é de 134,5 bilhões de euros – o que, em média, ultrapassará em muito o pagamento de 2012, chegando em alguns anos a ser o triplo. Esta dívida é impagável e não pode ser paga (…). Nos tempos em que o capital se afasta da democracia, a política do socialismo é lutar por ela: a democracia responsável é a arma contra a dívidadura”.

Política sombra 

Esse sistema de finanças sombra, alimentado pelo pagamento de uma dívida impagável e injustificável, tem a sua contrapartida política. O que faz falta na Europa hoje, disse Louçã, além de uma esquerda mais forte, é a existência de um centro mais moderado. Temos hoje um centro absolutamente radical implementando as ditas políticas de austeridade. A política da União Europeia hoje está bloqueada por este centro radical e por seus apoiadores na direita e na social-democracia que não admite qualquer negociação. Todos os hospitais de Madri estão para ser privatizados, exemplificou o economista português. “O discurso da privatização da saúde não procura nenhum consenso, nenhum contrato. As instituições políticas europeias deixaram de ter como função amortecer e negociar conflitos. É uma situação dramática”, assinalou Louçã, lembrando uma frase do escritor inglês Charles Dickens em “A história de duas cidades”: “Nós vivemos no melhor dos tempos. Vivemos no pior dos tempos”.

Para Louçã, o tema central da esquerda hoje deve ser a dívida. “Precisamos virar o debate da dívida e falar da maior das dívidas. O alvo que importa é o capital financeiro. O capital que lucrou imensamente na privatização de bens públicos, que transferiu, em 2012, 6,6 milhões de dólares/dia para paraísos fiscais, que lucra com o aumento dos impostos sobre o trabalho e o consumo, ao mesmo tempo em que tem reduzido os impostos sobre os seus próprios lucros. Nunca tivemos um poder tão poderoso como o poder financeiro atual. Diante desse quadro, precisamos de uma esquerda mais internacionalizada e que saiba que o seu principal adversário hoje é o capital financeiro”, defendeu o economista e ex-deputado do Parlamento Europeu.

Mais valia absoluta e segunda depressão 

Foto Mario Pepo
O que estamos vendo hoje na Europa, acrescentou, é a implementação de um processo de extração de mais valia absoluta dos trabalhadores, com corte de salários, aumento de impostos, diminuição de aposentadorias e aumento da jornada de trabalhadores. Ou seja, todos estão sendo convocados a trabalhar mais e a ganhar menos. Isso os que tem trabalho é claro. Os números sobre o desemprego na Europa são estarrecedores.

Segundo dados da agência de estatísticas Eurostat, o índice de desemprego dos 27 países da UE atingiu 9,8% em outubro de 2012, o maior patamar da série histórica, iniciada em 1995. São 23 milhões sem emprego e esse número já aumentou. A maioria (cerca de 16 milhões) está nos 17 países que compõem a zona do euro, cujo índice atingiu 10,3%, o maior desde a criação do euro, em 1999. No final de 2012, a Espanha apresentou o impressionante índice de 22,8%. Superou até a Grécia, que registrou desemprego de 17,7% no terceiro trimestre.

Os problemas sociais e econômicas causados pelos apóstolos da austeridade começam a bater à porta das principais economias europeias, como Itália, França, Inglaterra e mesmo na Alemanha. É um modelo, enfatizou Louçã, que tem o objetivo de drenar dinheiro dos trabalhadores, dos governos e das sociedades para esse sistema financeiro sombra. Daí a implantação de um regime de extração de mais valia absoluta. É um modelo insustentável social, política e economicamente, reafirmou. “Estamos muito perto da segunda grande depressão”, concluiu Louçã, lembrando que a Europa só conseguiu sair da primeira realizando uma das maiores e mais sangrentas guerras que o planeta já viu.

Coluna de Marco Weissheimer publicado no Portal do Sul21.