terça-feira, 30 de julho de 2013

Qual a Porto Alegre que queremos? - Seminário da Bancada do PT

Foto Marta Resing
Na manhã desta segunda-feira (30/7), a Bancada do Partido dos Trabalhadores (PT) na Câmara Municipal de Porto Alegre deu início ao Diálogo: rumo à Cidade que Queremos de forma sustentável, solidária e democrática. Após a abertura oficial (detalhes abaixo), o primeiro painel começou com a fala de Rogério Malinski.

Especialista em Planejamento Urbano, o professor lembrou que é preciso “um comprometimento real que supere os períodos eleitorais, pois a cidade não pode ser pensada a cada quatro anos”. “A máquina de planejamento urbano foi desmantelada em Porto Alegre. Não há hipótese de desenvolvimento se não tivermos uma estrutura mínima para isso”, ressaltou. Malinski disse, ainda, que não se pode transferir ou esperar que o setor privado vá dar conta do planejamento urbano. “Até porque não tem vocação para isso; não tem preocupação com os objetivos da cidade.”

Foto Mario Pepo
Doutor em Urbanismo, Benamy Turkienicz falou da inobservância de elementos técnicos, “o que mostra o descaso com que se trata a coisa pública nesta cidade”. “De nada valem os espaços públicos que temos se as pessoas não puderem usufruir deles”. Na avaliação do professor da Ufrgs, o desmantelamento da Secretaria de Planejamento começou quando a Capital instaurou o processo de participação popular. “Isto teve seu custo, que estamos pagando hoje.”

O presidente da Associação dos Profissionais em Design do RS, Mario Verdi, acredita que o que temos hoje é resultado de um modelo que trabalha com a massificação de tudo. “Isto trouxe uma problemática que cria o antagonismo entre os que querem a duplicação de uma via onde existe uma bicicleta branca com os dizeres: ‘mais amor, menos motor’. É por isso que os problemas da sociedade não serão resolvidos pela mesma lógica que os gerou.” Mostrando fotos de Porto Alegre, Verdi destacou o excesso de “comunicação visual” pelas ruas da cidade, gerando uma descaracterização total do ambiente. “Este modelo abusivo faz uso de um tipo de recurso do qual não temos como desviar o olhar. Isto é usado até como um argumento de visibilidade desta mídia, que não depende de credibilidade como os demais veículos de imprensa”. Ele alertou para os problemas de segurança no trânsito. “Esse desvio de atenção tira o foco principal do olhar da via, podendo ocasionar acidentes”. Verdi concluiu dizendo: “A cidade é um todo que é construído em partes, mas temos que ter a ideia de que todo é esse que estamos construindo.”

Foto Mario Pepo
Jornalista do Correio do Povo e da Rádio Guaíba, Juremir Machado começou respondendo a pergunta: Que cidade queremos? “A cidade que eu quero tem transporte público de alta qualidade e gratuito para todos, como forma de desafogar as ruas. Tem mais bicicletas, mais bondes e metrô subterrâneo”. O professor da Pucrs foi mais longe. “Quero uma cidade onde a mídia não criminalize os movimentos sociais, não seja sempre contra a ocupação das Câmaras de Vereadores. É na democracia que se pode ocupar. Na ditadura não há espaço para isso”, comentou. Para Juremir, o modelo ideal de cidade não é o mesmo proposto pelos “modernizadores”. “Eles são os culpados pela atual situação. Acabaram com os bondes, com as viagens de trens, que os europeus atrasados conservaram. Então eu quero uma cidade atrasada, que ande de trem, de barco, de bicicleta, que curta a orla do Guaíba a pé, e não a privatize, que aposte nos movimentos sociais e que cobre de seus representantes.”

O primeiro painel foi encerrado pelo presidente do PT gaúcho, Raul Pont. O deputado salientou a importância do diálogo que expõe o contraditório entre a cidade que queremos e aquilo que herdamos. “O poder público tem a responsabilidade de preservar a memória, que tem que existir acompanhando os processos decisórios. Isso não é contraditório com a participação”, explicou. “Aprendemos com a democracia participativa que, muitas vezes, o que nós pensávamos não combinava com o que o cidadão pensava sobre sua rua, seu bairro”, afirmou Pont. Sobre o setor de transporte público, o ex-prefeito da Capital (1997-2000) lembrou que a falta de regulação é que levou Porto Alegre a ter uma das tarifas mais altas do País.

Depois dos painelistas, foi aberto espaço para manifestações dos participantes. Lideranças comunitárias, indígenas e até mesmo um representante dos pedestres apresentaram suas visões sobre a cidade que queremos. Todas as propostas serão incorporadas ao documento final, que será divulgado no encerramento do evento.

A Capital parada no tempo

A situação atual da Capital gaúcha foi o tema principal da abertura do evento. O líder da Bancada do PT, Engenheiro Comassetto, destacou o levantamento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU). “Há 20 anos, Porto Alegre estava na ponta entre as capitais brasileiras no ranking do IDH. Neste momento, caímos para o sexto lugar. No geral, saímos do 9º para o 28º lugar.” Na visão do vereador, a Capital da participação hoje sofre para estabelecer um diálogo com a sociedade, tanto no Poder Executivo quanto Legislativo. “Precisamos a cada dia inovar, e Porto Alegre tem perdido sua característica de inovação, especialmente na questão do diálogo.”

Foto Mario Pepo
Representando o governo do Estado, a secretária de Políticas para as Mulheres, Ariane Leitão, reforçou a manifestação dizendo que o município retrocedeu nos últimos anos no aspecto de debates populares. O deputado federal Paulo Ferreira (PT/RS) também questionou por que a cidade parou? “Por que não conseguimos manter aquele padrão conquistado lá atrás?”

“Porto Alegre ficou parada e acabou sendo ultrapassada por outros municípios”, afirmou o deputado estadual Adão Villaverde (PT). O parlamentar salientou a necessidade de organizar as cidades para as pessoas. “Não foi nos últimos dois meses que as coisas foram surgindo em Porto Alegre. O Massa Crítica é uma abordagem crítica ao que acontece nas cidades. O movimento pelo passe livre não surgiu agora. O Cidade Baixa em Alta também. A moçada tomando o Parque da Redenção. É um conjunto de movimentos que surgiram porque existe uma ausência de debate sobre a nossa cidade”, concluiu.

O presidente do PT municipal, Adeli Sell, elogiou a iniciativa da Bancada petista em realizar o seminário. “Ele trará um conjunto de posições para que todos nós possamos tomar atitudes e possamos fazer acontecer.” 

Texto: Maurício Macedo (reg. prof. 9532)

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As mobilizações populares e as perspectivas para a cidade que queremos - Seminário da Bancada do PT