segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Paulo Teixeira, sobre o PT: “Precisamos fazer uma revisão profunda da nossa trajetória

Por Marco Weissheimer

Foto Divulgação PT
O deputado federal Paulo Teixeira (SP), candidato à presidência nacional do PT no Processo de Eleições Diretas (PED) que será realizado dia 10 de novembro, participou na manhã de sábado de uma plenária no Ritter Hotel, em Porto Alegre, para o lançamento de sua candidatura no Estado. O candidato da Mensagem ao Partido (bloco que reúne um grupo de tendências de oposição ao atual campo que dirige o PT) também participou de atividades em Caxias do Sul e Santa Maria neste final de semana.

Na plenária de Porto Alegre, Teixeira recebeu o apoio do ex-governador Olívio Dutra, do atual governador Tarso Genro, do ex-vice-governador Miguel Rossetto, do ex-prefeito de Porto Alegre, hoje deputado estadual, Raul Pont, de deputados estaduais, federais, vereadores, entre outras lideranças do PT gaúcho. Em conversa com o Sul21, Paulo Teixeira falou sobre o sentido de sua candidatura e apontou alguns dos problemas que, na sua avaliação, precisam ser enfrentados pelo partido no próximo período. A seguir, um resumo das posições de Paulo Teixeira para o PT:

“Brasil quer novo ciclo de mudanças” 

“O Brasil vive um período de grande efervescência, provocada em parte pelas mudanças realizadas nos dois governos do presidente Lula e no governo da presidenta Dilma, e, em parte, pelo fato de que a sociedade brasileira quer mudanças. Ela quer mudar o país na direção de melhores serviços públicos, mais democracia e valores republicanos na política. É por isso que o PT, que foi capaz de alavancar uma grande mudança no Brasil, precisa ser capaz agora de alavancar esse segundo ciclo de mudanças, que estamos chamando de segundo ciclo da revolução democrática. Evidentemente, o PT se debruçou sobre essa política de governar o Brasil e conseguiu realizar muitas coisas boas, mas também carrega muitos problemas. Esse debate sobre um novo ciclo de mudanças e sobre a superação dos problemas requer um debate intenso no PT. A nossa candidatura quer promover esse debate e provocar um processo novo no interior do partido, capaz de prepará-lo para esse avanço que o Brasil está requerendo, como ficou claro com essa mobilização da juventude que foi às ruas”.

Os problemas dentro do PT 

“O primeiro problema que precisamos enfrentar no PT vem da relação do partido com o sistema político. Ou nós mudamos esse sistema política ou ele vai acabar conosco. Para isso precisamos realizar uma reforma política no Brasil. Um segundo problema está ligado ao tema das alianças. Nós precisamos qualificá-las de tal forma que elas tenham mais nitidez programática, mais clareza sobre nossas posições. Na tarefa de governar, nós ampliamos corretamente as alianças, mas não há uma qualificação programática dentro delas. Houve uma diluição do nosso partido no conjunto das alianças. Não se trata de não fazer alianças, mas de qualificá-las. O terceiro problema tem a ver com a exigência do PT se entender não como um partido meramente eleitoral, mas como um partido político que faz política para toda a sociedade, que reflete os problemas”.

“Sobre este último tema, eu levanto algumas questões. A primeira delas diz respeito ao nosso afastamento dos movimentos sociais. As ruas nos disseram isso em junho. Nós nos afastamos dos velhos movimentos sociais tradicionais da sociedade industrial e dos novos movimentos sociais que vêm da sociedade do conhecimento. Nós nos afastamos mais gravemente destes novos movimentos ao não entendê-los, não conhecê-los e ao não dialogar com eles. Além disso, temos uma fragilidade imensa no tema da comunicação. Trazemos um passivo enorme sobre esse tema e o PT precisa fazer uma autocrítica. Deveríamos ter avançado no tema do marco regulatório que apontasse na direção da democratização das comunicações no Brasil. Também poderíamos ter tido iniciativas mais ousadas para organizar mecanismos de comunicação mais eficazes no país. Precisamos melhorar a qualidade de nossa comunicação enquanto partido político e também melhorar a comunicação do país”.

“Parte dos problemas que enfrentamos em junho deve-se ao fato de que, além de ter uma agenda progressista, a juventude recebe informações dos meios de comunicação e, às vezes, são informações que criminalizam a política, que generalizam os problemas, maximizando os nossos e minimizando os da oposição. Então, precisamos ter uma agenda de comunicação mais robusta”.

“Precisamos fazer uma revisão profunda da nossa trajetória”

“No plano organizacional, precisamos ter um partido que retome práticas de gestão coletiva, que reconstrua as instâncias políticas e que se torne uma referência para dar conta os desafios que mencionei anteriormente. Precisamos aprender com os partidos de esquerda e os partidos progressistas no Brasil e no mundo. A luta institucional acaba esvaziando o conteúdo desses partidos. Como disse o Mino Carta, se nós não nos penitenciarmos neste momento e fizermos uma profunda revisão da nossa trajetória, aprofundando os nossos caminhos na direção das mudanças, da qualificação, da reforma política, da ampliação dos meios de comunicação, do retorno aos movimentos sociais e da construção partidária, a tendência nos próximos anos será aquela que não gostaríamos e esvaziará a proposta de PT que queremos e precisamos”.

“Nós temos um patrimônio excepcional na sociedade brasileira, precisamos zelar por ele, mas olhar para frente. Se muito vale o já feito, mais vale o que será. Portanto, precisamos dar conta desse desafio. Esse é o sentido da minha candidatura, que procura construir esse debate pelo país”.

Sobre a Reforma Política 

“O Partido dos Trabalhadores não desistiu de uma reforma política mais forte no curto prazo. Neste momento, estamos construindo uma proposta de plebiscito para ser aprovada no Congresso Nacional e implementada ainda este ano. Essa proposta está sendo costurada conjuntamente com o PC do B, o PSB e o PDT. Ela é a nossa esperança no curto prazo. O que nós defendemos é uma reforma política a quente neste momento para dar respostas à crítica das ruas em relação à baixa intensidade da nossa democracia. Essa baixa intensidade se dá, em parte, pela captura das instituições políticas pelo grande poder econômico e, em parte, pelo atual modelo de sistema eleitoral que, além do financiamento privado, privilegia o voto nominal. Além disso, é um sistema que não favorece a participação das mulheres. O Brasil é um país que tem uma elite parlamentar que tem medo de consultar o povo. Precisamos seguir o exemplo de outras democracias que se utilizam largamente do referendo e do plebiscito. As eleições nos Estados Unidos, por exemplo, são demoradas porque o eleitor vota em inúmeros temas do seu interesse”.

“Neste debate sobre a reforma política, devemos ter um olhar para o sistema eleitoral e também para os instrumentos de democracia participativa. Precisamos pensar também em como fazer avançar no nosso sistema político o tema da comunicação e da cultura digital. Cerca de metade da sociedade brasileira já está, direta ou indiretamente, na internet. Precisamos desenvolver mecanismos de consulta por meio da internet para dar conta dessa nova realidade”.

Fonte: Sul21