sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O capitalismo não precisa de democracia - Ingo Schulze

Por Iuri Müller - Portal Sul 21

Foto Mario Pepo
Palavras e pensamentos desapareceram justamente no momento em que seriam mais importantes”, opina Ingo Schulze

Ingo Schulze veio a Porto Alegre para conferenciar na Câmara de Vereadores e participar de debates na Feira do Livro

Autor do largo romance Vidas novas e do livro de contos Celular, o escritor alemão Ingo Schulze esteve na noite desta quinta-feira (14) na Câmara de Vereadores de Porto Alegre e, de alguma maneira, deixou a literatura de lado. Schulze, que também participará da programação da Feira do Livro neste sábado (16), ontem conferenciou sobre a crise econômica da Europa, a onda de privatizações que assola a Alemanha e as recordações da queda do muro de Berlim, em 1989, na atividade proposta pela vereadora Sofia Cavedon (PT), presidente da Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Juventude da Câmara Municipal de Porto Alegre, Instituto Goethe, Câmara do Livro e Alemanha+Brasil.

Ingo Schulze nasceu em Dresden, no leste alemão, e tinha 26 anos quando o muro caiu. “Quando estou no estrangeiro, as pessoas perguntam com frequência: onde você estava no dia nove de novembro de 1989, quando o muro foi derrubado? Não tenho muito a dizer a respeito, porque naquela noite dormi muito cedo”, conta o escritor. As mudanças do paradigma político representadas por aquele outono aparecem com frequência tanto na literatura como nas manifestações políticas de Schulze, que relaciona os discursos e as decisões daquela época com o retrato desta Alemanha atual.

Foto Vicente Carcuchinski/CMPA 
Nunca, na história da Alemanha, a riqueza privada e o endividamento público foram tão grandes”, afirma Schulze

O escritor afirma que a ruptura do Bloco do Leste e a vitória do capitalismo ocidental foram tratadas como se a humanidade enfim voltasse “ao seu estado natural” e o socialismo, “tivesse sido apenas um acidente dentro da história”. No entanto, ainda que houvesse de fato o que comemorar com a reunificação da Alemanha e as demais mudanças do final da década, Ingo Schulze afirma que as perguntas que deveriam ter sido feitas na ocasião acabaram silenciadas – e hoje o silêncio cobra o seu preço.

Parece que chegamos a um mundo sem alternativas. O bem-estar só poderia existir numa economia de mercado, com a propriedade privada dos meios de produção. Poderíamos também ter dito que o colapso do sistema stalinista finalmente nos libertaria para outro caminho ao socialismo, mas nisso ninguém falou”, lembra o escritor, que tem três livros publicados em português, publicados pela editora Cosac Naify. Schulze frequentemente viaja pela Europa para ler trechos das suas obras e, numa jornada em Portugal, se envolveu outra vez com as contradições que a crise econômica e política do continente faz saltar aos olhos. Na cidade do Porto, Ingo Schulze lia em alemão e tinha os fragmentos logo vertidos para o português por um tradutor. No espaço reservado para as perguntas, entretanto, foi surpreendido por um leitor nativo. “Um homem jovem me perguntou: ‘vocês, com o Euro, estão logrando o que não conseguiram com os blindados no passado?’ O pior é que reagi como alemão, fiquei ofendido e disse que ninguém é forçado a comprar um Mercedes Benz ou um BMW, que os portugueses deveriam ficar contentes com os créditos que poderiam comprar com os países do grupo”, recorda.

Foto Mario Pepo
Precisamos de mercados em conformidade com a democracia, e não o contrário”, opina.

Pouco depois, o escritor percebeu ter caído na armadilha e retomou o tema entre os portugueses que o assistiam com crescente inquietação. “Disse ao público que estávamos nos identificamos como alemães ou como portugueses, mas esta pergunta não deve ser feita entre alemães e portugueses, ou entre alemães e gregos. Em qualquer país, há quem lucre com a crise econômica e quem pague o pato e, em regra, a maioria paga o pato”, opina o escritor. Ingo Schulze critica sem meias-palavras o projeto político de Angela Merkel, símbolo de uma Europa repleta de contrastes e, nos últimos anos, de homens e mulheres que se vêem sem emprego.

Nunca, na história da Alemanha, a riqueza privada e o endividamento público foram tão grandes”, lembra o escritor. Com Merkel, a privatização dos meios de produção se intensificou – ainda que já estivesse em andamento desde os anos 1990 – e a adaptação do Estado em relação ao mercado tornou-se visível. Schulze critica a direção das políticas do governo alemão: “precisamos de mercados em conformidade com a democracia, e não o contrário. É preciso reconquistar a confiança da bolsa? Não, é claro, a bolsa é que deveria reconquistar a confiança da sociedade minimamente organizada”.

Foto Mario Pepo
Para o escritor de Vidas Novas, “o mais desconcertante” é o fato da profunda crise ainda não ter gerado consequências reais nas regras do jogo. “Agora, algo que diz respeito à minha profissão: palavras como capitalismo e luta classes ficaram fora de moda. Algumas perguntas foram estigmatizadas, como se fossem próprias de um pensamento vulgar. Um grupo inteiro de palavras e pensamentos desapareceu, justamente no momento em que seriam mais importantes”, lamentou Ingo Schulze, que encerrou a conferência lembrando a necessidade de romper o silêncio e o isolamento das ideias na Alemanha e na Europa em crise.

Matéria publicada no Portal Sul21.