sexta-feira, 18 de julho de 2014

Porto Alegre sedia Conferência Mundial de Educação Musical a partir deste domingo

Centenas de músicos e educadores de 70 países estarão na abertura do mais importante evento de educação musical do mundo 

Este domingo (20/7) será de apoteose para a professora Cecilia Rheingantz Silveira. Ela irá reger 40 de seus pupilos da Orquestra Villa-Lobos diante de centenas de músicos e educadores de 70 países, na abertura do mais importante evento de educação musical do mundo.

O trabalho da professora, resultado de 22 anos de um esforço que começou com um núcleo de 12 aprendizes de flauta doce na Escola Municipal Heitor Villa-Lobos, na Lomba do Pinheiro, na Capital, é a síntese da luta nacional para que a musicalização de crianças e adolescentes seja encarada como conteúdo de primeira linha no ensino, e não como recreio.

Foto Mirele Pacheco/PMPA 
Nessa batalha dos que vislumbram que histórias como a de Cecilia não sejam a exceção da exceção, há conquistas. Uma delas ocorreu há seis anos, quando foi sancionada a lei 11.769, obrigando todas as escolas públicas e privadas do Brasil, da Educação Infantil ao Ensino Médio, a incluir música em suas grades curriculares a partir de 2012. Mas o compasso de aplicação da lei é lento.

– Países como a Finlândia têm educação musical em todo o currículo, e os alunos do Ensino Médio saem tocando um instrumento de orquestra. Na China, há livros didáticos de música como há para outras disciplinas. É prioridade nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Alemanha, na Holanda, para citar alguns países. Aqui, ainda é uma luta quase inglória – compara a professora e pesquisadora da UFRGS Liane Hentschke, coordenadora-geral da 31ª Conferência Mundial de Educação Musical, o evento que os pequenos musicistas de Cecilia irão abrir.

Organizado pela International Society for Music Education (Isme), a conferência irá ocorrer pela primeira vez na América Latina e terá como um dos temas de debate a aplicação da lei brasileira. O Ministério da Educação deve regulamentá-la em breve, já que o texto atual não detalha sequer a carga horária mínima do ensino de música.

– Para conseguir a aprovação, tivemos de abrir mão da exigência de que música seja uma disciplina e aceitar que seja um conteúdo, mas sem especificar como precisa ser tratado. A lei também falha em não determinar que o professor seja licenciado em música, o que consideramos fundamental – acrescenta Liane, que lamenta o fato de ter sido obrigada a abortar a ideia de levar grupos visitantes, de outros países, a se apresentar em escolas públicas por falta de patrocínio.

Governo entregou kits para formar orquestras 

Foto Marta Resing
Aos poucos, prefeituras se movimentam para fazer concursos e aumenta a procura por professores licenciados em música. A coordenadora dos centros musicais da rede municipal de Porto Alegre e professora da Uergs, Cristina Rolin Wolffenbüttel, liderou uma pesquisa no ano passado na qual foram enviados questionários a todos os municípios gaúchos para aferir quantos se adaptaram à nova lei. Dos 497, 54 responderam e 52 disseram que a música está inserida nos currículos.

– Já identificamos aqueles que estão realizando concurso ou pretendem realizar, mas ainda são poucos. Mesmo com dificuldade, municípios e Estado têm dado um jeito de inserir a música aos poucos – afirma.

Em Porto Alegre, que está à frente no Estado por lançar editais para a contratação de professores de música desde os anos 1990, segundo Cristina, há 50 profissionais concursados e dezenas de outros que trabalham de alguma forma com o tema nas 43 escolas.

Nas instituições estaduais, segundo o governo gaúcho, há projetos voltados à música em pelo menos 500 escolas. Este mês, a Secretaria Estadual de Educação começou a entrega de kits de 70 instrumentos para formar 51 orquestras estudantis, dentro do programa Mais Educação do governo federal.

A regente Cecilia sonha com o dia em que os professores de música se sintam tão valorizados quanto aquele de português ou matemática, algo que ela vivenciou quando dava aulas no colégio particular João XXIII, considerado vanguarda e que acaba de lançar um projeto criativo e barato (veja ao lado).

– Na escola pública, tive de desbravar muito. Eu poderia ter desistido, mas a gente não pode se sentir derrotada e ficar só culpando os outros – estimula a regente.

Serviço 

A 31ª Conferência Mundial de Educação Musical, organizado pela International Society for Music Education (Isme), vai reunir, de 20 a 25 de julho, palestrantes nacionais e internacionais na PUCRS e na UFRGS. Além disso, mais de 30 grupos musicais de 15 nacionalidades se apresentarão gratuitamente no Salão de Atos da UFRGS. A abertura é no domingo, às 19h30min.

Na terça-feira (22), a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa) também se apresentará na UFRGS com ingressos a R$ 20. Informações pelo site www.isme.org/isme2014.

Um parque invadido por notas 

Aquela aula convencional, em que o professor chega à sala, entrega folhetos com letras, contextualiza brevemente as canções e depois ensaia um coral ainda impera, mas incomoda o inquieto professor Marcello Ferreira Soares. Mestre em musicologia, Soares vai além de identificar vozes ou instrumentistas em potencial. Seu objetivo é facilitar o acesso à música, o que põe em prática com alguns metros de cano PVC, metal e chinelos de dedo.

A vontade de inovar do professor convergiu com a proposta da diretora do Colégio João XXIII, Anelori Lange, que há anos sonhava em instalar um parque musical no pátio da escola. A disciplina de música está no currículo nas classes infantis até o oitavo ano e, agora, os estudantes do Ensino Médio usufruem do projeto inaugurado na última sexta-feira e que espalhou pontos musicais pelo colégio.

São nove instrumentos. Seis deles são aerofones, fisicamente semelhantes a um órgão, com som emitido por meio da batida do chinelo em um tubo de PVC. Cada cano repercute uma nota musical. Como são rítmicos, não requerem habilidade musical específica, e as formas de trabalhar são infinitas. A proposta é dar uma condição visual e perceptiva das alturas e das notas musicais, explica o idealizador.

Foto Lauro Alves/Agencia RBS
Alunos do João XXIII tocam o “Chinelotron”, nome dado ao instrumento de PVC instalado no pátio 

No dia da inauguração, dezenas de estudantes se espremeram no pátio para ver Wesley Roque, 17 anos, tocar no “Chinelotron”, instrumento assim batizado pelo par de sandálias que substituem baquetas. Os olhares curiosos interessaram professores de outras disciplinas a utilizar os instrumentos para explicar o conteúdo dos livros.

– Dá para utilizar os instrumentos para ensinar fluídos que se dá em física no terceiro ano, volumes de cilindro em matemática do Ensino Médio. Tanto matemática, física quanto química podem se beneficiar – afirmou um dos docentes.

Para Luciane Cuervo, pesquisadora do Educamus, Grupo de Estudo e Pesquisa em Música e Educação, a medida é salutar. Ainda que em um colégio particular, mostra como um problema que professores costumam enfrentar nas escolas públicas pode ser driblado: o baixo investimento para compra de instrumentos musicais. Cerca de R$ 8 mil saíram dos cofres do João XXIII para a produção do parque.

– Em colégios você vê as aulas de música mais ligadas a datas comemorativas, com repertório reproduzido. Esperamos uma abordagem mais dinâmica. Aprender canções mais conhecidas, ok, mas que tenha uma parte de construção. A música é vista como vitrine pelas escolas, não como forma de conhecimento – observa Luciane. 

Assista aqui o vídeo.

Fonte: Portal do jornal Zero Hora.