quinta-feira, 27 de agosto de 2015

EPA comemora 20 anos com futuro incerto

Foto Marta Resing
A vereadora Sofia Cavedon (PT) é uma das incansáveis lutadoras para que a Escola Porto Alegre (EPA) não feche. Veja aqui o histórico de lutas do seu mandato

Escola municipal voltada para pessoas em situação de rua, com 192 matriculados, corre o risco de fechar na Capital

Por Isabella Sander/JC

De acordo com a diretora Jaqueline Junker, cerca de 90% dos alunos moram nas ruas

Quem conversa com algum dos alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Porto Alegre (EPA) tem uma certeza: a instituição, que completou 20 anos nesta quinta-feira com uma grande festa e atende prioritariamente pessoas em situação de rua, é insubstituível para eles. "A gurizada na rua não quer te ajudar, e sim te convidar para fazer coisa errada. Então, tem que tirar esse povo da rua, que está se perdendo nas drogas, e trazer para a escola. O meu vício é a escola", afirma Bruno Ribeiro, de 28 anos.

O vício de Ribeiro, contudo, possui futuro incerto. Há cerca de um ano, a escola, na rua Washington Luiz, no Centro, recebeu a notícia de que a prefeitura da Capital pretendia fechar as portas da instituição e transferir os estudantes para outros lugares.

Desde o anúncio, um movimento encabeçado pela comunidade escolar luta para manter as atividades em funcionamento. Após processo da Defensoria Pública da União, a 2ª Vara da Fazenda Pública do Foro Central concedeu liminar proibindo o fechamento. A prefeitura recorreu em fevereiro e, até o momento, não houve nova decisão da Justiça.

Foto Marco Quintana/JC
Com metodologia diferenciada, a EPA oferece Educação para Jovens e Adultos (EJA). As turmas são de, no máximo, 15 alunos, a fim de personalizar o ensino. O local conta com refeitório e espaço para tomar banho. Além disso, oferece cursos profissionalizantes de cerâmica e reciclagem de papel.

Ribeiro estuda na EPA há dois anos e cursa hoje disciplinas do terceiro e do quarto ano do Ensino Fundamental. Lá, descobriu uma nova paixão: o grafite. "É o modo que tenho de expressar meus sentimentos e não precisar chorar, brigar com ninguém. Muita gente que poderia estar na rua vendendo drogas hoje está aqui, cantando, colocando os sentimentos para fora: a saudade da família, do irmão, do pai que abandonou por briga, essas coisas", relata. O jovem passou um ano e meio morando na rua, mas hoje é casado e tem um filho de quatro anos.

Fagner de Oliveira Vieira, de 36 anos, chegou de Santa Maria há um ano, fugindo de traficantes do município. Em Porto Alegre, foi acolhido pela EPA e hoje cursa o primeiro ano do Ensino Fundamental. Atualmente, possui uma residência temporária, pois está trabalhando como caseiro em piquetes no parque Harmonia. "Eu durmo lá e, de manhã, venho para a escola. Estou aprendendo a ler e escrever, e, morando há 20 anos na rua, nunca tinha tocado em uma caneta ou um lápis", revela.

Vieira tem muito medo de que a EPA feche. "Não há outro colégio como este. Eu era traficante e larguei o tráfico de mão para ir à escola. Se eu sair daqui, tenho medo de cair no tráfico de novo, e não quero isso. Quero estudar e ser gente na vida, mostrar para as minhas duas filhas que fui longe. Em vez de estar com uma arma na cintura, quero estar com um caderno embaixo do braço", ressalta.

Foto Elisamar Rodrigues
Paulo Roberto da Silva, de 39 anos, também é aluno do primeiro ano do Ensino Fundamental e está sendo alfabetizado. Morador de rua, ele é contra o fechamento da instituição, pois se adaptou à metodologia e se sentiu bem-recebido pelos professores e pelos colegas. "Eles querem fechar, mas não vamos deixar. Como é que vão tirar esse espaço da gente, se a gente precisa dele? Não tem como, né?", questiona.

Miriam Silva da Silva, de 33 anos, faz questão de ir todos os dias para a EPA para cursar disciplinas do quinto e do sexto ano do Ensino Fundamental. "Quando eu tinha idade para estudar, tive que trabalhar. Agora, estou na rua e tive a oportunidade de voltar para a escola. Como a EPA funciona de dia, posso vir e sair cedo, para conseguir chegar aos albergues às 19h, quando eles abrem", observa.

Para Miriam, nenhuma escola deveria ser fechada. "A escola é muito importante para nós, e nos tira da rua. Aqui, podemos alimentar o sonho de criar um mundo melhor para a gente. Tenho medo de dormir na rua, dos estupros, por isso quero uma vida melhor. Se a sociedade já é difícil para as mulheres, imagina para as que estão na rua e sem dinheiro... Os homens pensam que somos prostitutas, e eu não gosto de ser tratada assim."