quinta-feira, 13 de agosto de 2015

EPA Resiste e forma quatro alunos no Ensino Fundamental

Foto Divulgação Sofia Cavedon
 A vereadora Sofia Cavedon (PT) disse em sua manifestação que cada aluno formado na EPA corresponde a uma turma inteira das escolas de ensino regular. “A proposta pedagógica na EPA realiza nossa concepção de educação cidadã: constrói novos projetos de vida com a saída da situação rua, portanto ela é imprescindível e essa formatura prova que a escola não pode fechar”, salienta a parlamentar.

Para Almeida (c), instituição, mais do que uma escola, é uma família

Por Isabella Sander/JC

"Aqui, sonhos que já tinham morrido ressuscitaram", desabafa Romildo da Silva Almeida. Com 39 anos, o manaura, que já morou também em São Paulo e se mudou para Porto Alegre em dezembro do ano passado, passou por um longo trajeto até chegar a esta quinta-feira, 13 de agosto, quando enfim se formou no Ensino Fundamental. Almeida é um dos quatro formandos da Escola Municipal Porto Alegre (EPA).

Foto Divulgação Sofia Cavedon
"Quando cheguei a Porto Alegre, me vi na rodoviária pensando: ou me torno mais uma pessoa em situação de rua, ou uso as minhas dificuldades para crescer. Então, resolvi procurar uma Escola de Jovens e Adultos (EJA) para terminar meus estudos e, por providência divina, encontrei a EPA, que é muito mais do que uma escola - é uma família", celebra. Depois de dois dias na rua, procurou um hotel e, em seguida, alugou um quarto em uma pensão, onde mora hoje.

Durante os sete meses que passou na instituição de ensino, Almeida sentiu-se acolhido e cativado pelo sistema de ensino. Na formatura, foi orador da turma. "Fiquei surpreso ao entrar na EPA, pois não fui tratado como aluno, e sim como membro de uma família. Aqui, aprendemos verdadeiras lições de política, choramos juntos contra a tirania que insiste em fechar as portas do nosso lar e tivemos aulas de democracia, vendo nossos professores e diretores lutarem para manter a EPA aberta", elogia. Para o futuro, muitos planos. "Quero terminar o Ensino Médio, fazer faculdade de Letras, escrever muitos livros e atuar na área empresarial", projeta.

A instituição que o formando chama de lar, no entanto, não tem um futuro tão definido quanto o dele. Mantida aberta por meio de liminar da 2ª Vara da Fazenda Pública, a escola sofre ameaças desde o ano passado por parte da Secretaria Municipal da Educação (Smed) de encerrar suas atividades. No prédio, localizado na rua Washington Luiz, seria oferecida Educação Infantil. Além das aulas, a instituição oferece banho, com chuveiros à disposição, bem como almoços e jantares.

Ênio de Souza Rocha, de 34 anos, não teve a mesma sorte do colega e ainda habita as ruas da Capital. A situação de vulnerabilidade social, contudo, não o impediu de se formar. "Eu já tinha estudado até a oitava série, mas nunca concluí, porque não me adaptei ao sistema normal. A EPA é diferente, tem toda uma dinâmica voltada para o acolhimento e o pessoal que trabalha aqui tem uma garra muito grande", observa. Agora que já terminou o Ensino Fundamental, Rocha quer engatar no Ensino Médio. "Estou procurando outras escolas com o sistema EJA para abreviar o tempo e me formar logo. Quero conseguir um bom emprego e ter uma vida melhor", planeja.

Foto Divulgação Sofia Cavedon
Para a diretora da EPA, Jaqueline Junker, a incerteza sobre o fechamento ou não da escola não teve apenas lados negativos. "Essa incerteza criou uma situação que dificulta, mas fortalece vínculos. Ficamos muito mais unidos", revela. Segundo a educadora, a formação dos quatro alunos mostra que, mesmo diante de dificuldades, a escola se mantém exercendo sua principal função - a escolarização de jovens, adolescentes e adultos, com foco em pessoas em situação de vulnerabilidade social e rua-moradia. "Isso valoriza nosso projeto pedagógico, feito por cada aluno e professor diariamente", enfatiza.

Existente há 20 anos, mas funcionando até a oitava série desde 2008, a EPA formou 44 estudantes. Hoje, possui 180 alunos matriculados e cerca de 60 frequentando regularmente. Na opinião de Jaqueline, não é pouco. "Em outras escolas, com outros perfis, esses jovens não conseguiriam se formar. A EPA oferece um caminho mais suave e acolhedor para que eles possam se constituir como estudantes", define a diretora.

Fonte: Portal do Jornal do Comércio.