terça-feira, 5 de abril de 2016

O Gênero já está na Escola - Por *Sofia Cavedon

Artigo publicado na edição impressa do Jornal Correio do Povo desta terça-feira (05/4)

Foto Marta Resing
Gênero é conceito forjado pelas feministas estudiosas da área nas universidades no final dos anos 60 com o objetivo de ressaltar o caráter cultural e histórico das diferenças entre os sexos. Para sair da explicação das desigualdades a partir das fundamentações baseadas nas diferenças físicas, biológicas e compreender como uma relação entre sujeitos historicamente situados, cuja desigualdade entre homens e mulheres é produzida culturalmente. Significa afirmar que as relações de poder vividas a partir das construções de gênero se expressam no corpo, gestos, posturas e disposição de homens e mulheres no mundo.

Foi apropriado pelos movimentos feministas como instrumento de análise e de organização da ação para a mudança da desigualdade, repressão e violência decorrentes da construção da inferioridade da mulher.

É a partir da consolidação do capitalismo que a divisão entre a esfera pública e privada determina um tipo de trabalho para cada gênero. Às mulheres o doméstico, a maternidade como principal atribuição, o cuidado com a casa, o preparo do alimento. É o chamado trabalho reprodutivo, não valorizado, não remunerado. Já ao homem, o trabalho produtivo, o provedor da família, o chefe do casal, administrador dos bens comuns.

Este sexismo só foi possível através da naturalização das diferenças. Ideias repetidas à exaustão nas famílias, nas escolas, na mídia, nas revistas femininas em profusão, nas novelas e nos programas de humor com seus modelos caricatos, nas propagandas que ensinam como manter a casa limpa e continuar bonita, etc. É assim que além de sofrer violência, as mulheres estão nos postos de trabalho menos remunerados, tem dupla jornada, são poucas nos espaços políticos, ausência que contribui para a reprodução do machismo.

A escola, por mais que queiram fazer acreditar, não tem um papel neutro nisso. Se não promover a reflexão e práticas que questionem os valores sexistas, os reproduzirá como verdades. Continuará instrumento de naturalização da desigualdade.

Por isso fechamos o mês de março na Câmara Municipal com o primeiro Seminário Nacional da recém-criada Procuradoria da Mulher e iniciamos uma Rede da Educação pela Igualdade propondo este diálogo da luta das mulheres com a educação, cientes de que só iremos proteger a vida das mulheres e construir sua autonomia, se alterarmos o sexismo que as aprisiona e discrimina.

 *Vereadora e Procuradora Especial da Mulher da Câmara Municipal de Porto Alegre