quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Mulheres fissuram o muro do machismo e da misoginia em ato coletivo de empoderamento e resistência

A vereadora Sofia Cavedon (PT), que participou do encontro, afirmou que "a coragem e unidade das mulheres bancárias que organizaram o coletivo de mulheres e já fazem seminário de formação, faz o machismo e o assédio recuarem!"

Foto SindBancários/as
Homens do mundo. Trabalhadores, estudantes, bancários, sindicalistas. Se nós ainda não compreendemos a importância das mulheres na luta por democracia, por melhores condições de trabalho, por igualdade, nós estamos na contramão da história e perdendo importantes protagonistas na defesa que fazemos por melhores condições de vida. Se perdemos para o golpe do interino Temer, a derrubada da presidenta Dilma é o retrato de um processo não apenas antidemocrático e corrupto, mas também do machismo e da misoginia estrutural que contamina nossas relações pessoais e que é alimentada pela fogueira da mídia. Feminismo, caros amigos homens, nunca foi palavra perigosa. E agora é palavra urgente!

Todos os dias as mulheres são pressionadas a serem melhores do que os homens, a serem belas, jovens, recatadas e do lar. E nós, homens, fazemos muito bem a nossa parte para reproduzir essa cultura: desconhecemos, contamos piadas machistas e sequer lutamos por uma presença maior das mulheres em diretorias de sindicatos e nas posições executivas de nossos ambientes de trabalho. É preciso mudar muita coisa.

Ainda bem que existe o Coletivo de Mulheres Bancárias do SindBancários que representa  um esforço do tamanho da coragem da artista mexicana Frida Kahlo para mudar essa lógica. Num ato histórico na noite da terça-feira, 9/8, na sede da Fetrafi-RS, mulheres de luta, mães, trabalhadoras, lésbicas, trans, vereadoras, negras, não deixaram de apontar em todas as direções aquilo que precisa mudar. O machismo, a misoginia, a resistência e a luta coletiva miram o rompimento de um muro que separa as mulheres de um reconhecimento necessário. Na noite da terça, o Ato Mulheres Trabalhadoras na Luta por mais direitos lançaram a cartilha “Você não está sozinha”. O muro ainda está de pé, mas sofreu um abalo que lhe deixou fissuras.

Foto SindBancários/as
Tatiana Oliveira, bancária da Caixa e diretora de Comunicação do Sindicato dos Bancários do Pará, militante da Marcha Mundial das Mulheres e secretária da mulher da CUT do Pará, apresentou o estudo “Mercantilização do corpo e da vida das mulheres”. O tema parece imperceptível, invisível até. Mas é tão presente na vida das trabalhadoras que chega a se naturalizar.

Tatiana deu um exemplo do cotidiano e de como o capitalismo funciona. Parece muito natural que paguemos R$ 3 por uma garrafa de água mineral. Porém, é preciso que pensemos que a água é um bem comum, necessário à vida das pessoas, que é da natureza e que também é mercantilizada, assim como os corpos das mulheres. A mídia também desempenha seu papel nefasto. Impõe que as mulheres sejam jovens, magras e loiras para vender produtos de beleza. “Isso tudo mina a autoestima da mulher. O capitalismo sempre apresenta soluções para os problemas que enfrentamos. É como se perguntassem a nós: Você está cansada, com dor de cabeça por causa da jornada dupla? Toma aqui um doril que você vai conseguir cuidar das crianças depois de chegar do trabalho”, ilustra Tatiana.

História da luta das bancárias

Foto SindBancários/as
Elaine Curtis, bancária do Bradesco e secretária da Mulher da Contraf-CUT, apresentou um histórico da luta das mulheres bancárias. O documento “A luta da categoria bancária pela igualdade de oportunidades” mapeia as dificuldades das mulheres para enfrentar o machismo. Dados da RAIS, do Ministério do Trabalho, mostram que 49% da totalidade dos trabalhadores bancários são mulheres.

E, mesmo que tenham mais anos de escolaridade do que os homens, elas ocupam apenas 8,4% dos cargos de diretorias nos bancos. Sem contar que a conquista de uma cláusula da convenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) nos bancos, de igualdade de oportunidades, começou em 1986 e só virou cláusula em 2000. “O objetivo dessa pesquisa não é só olhar e ver os nossos problemas. Juntos, homens e mulheres, podemos fazer um planejamento para um plano de ação capaz de superarmos essas dificuldades”, analisou.

Mulheres ícones

Foto SindBancários/as
Silvana Conti começou sua palestra de 20 minutos com uma canção. Professora da rede pública municipal de Porto Alegre, desde os anos 1980, e diretora do Sindicato dos Municipários, ela iniciou sua fala apresentando-se. É mulher, lésbica, feminista e de religião de matriz africana. Para Silvana, há duas mulheres brasileiras ícones, neste momento histórico de retrocessos, que representam a importância da luta e da resistência das mulheres ao golpismo.

“O trabalho é uma questão central para as mulheres, pois representa empoderamento e autonomia. Duas mulheres que nos representam neste momento são Dilma Rousseff e a judoca medalhista de ouro Rafaela Silva. A presidenta sofre uma perseguição política, e a Rafaela sofreu racismo. A luta contra o machismo e a misoginia tem que ser feita com mulheres e homens em termos de sociedade para avançarmos. Temos que estar lado a lado”, discursou Silvana.

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