terça-feira, 18 de outubro de 2016

Delegados de planejamento criticam projeto do Cais Mauá e pedem consulta pública

Foto Sofia Cavedon
Incrível a coragem da especulação de cobrir a vista da Usina com um shopping! E a Prefeitura querer licenciar assim mesmo, por cima da vontade popular!  Vejam com ficará a  Usina do Gasômetro se prosperar o projeto de "revitalização" do Cais Mauá que constrói shopping e edifícios nas beira do Guaíba.Vereadora Sofia Cavedon participou da reunião que apresentou o projeto

Delegados de planejamento criticam projeto do Cais Mauá e pedem consulta pública

Débora Fogliatto/Sul21

Foto Guilherme Santos/Sul21 
Os delegados que representam a Região de Planejamento 1 (RP1) de Porto Alegre, que corresponde ao centro da cidade, participaram nesta segunda-feira (17) de reunião em que foi apresentado o Estudo de Viabilidade Urbanística (EVU) do projeto para o Cais Mauá, o qual tramita no Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano Ambiental (CMDUA). Durante o encontro, que contou com integrantes da empresa Cais Mauá S.A e com manifestantes contrários à obra, os delegados se manifestaram, em sua maioria, criticando o projeto, pedindo mais detalhes e sugerindo uma consulta pública sobre o assunto.

A reunião ocorreu no Plenário Ana Terra da Câmara Municipal (conhecido como Plenarinho) e começou com a apresentação da arquiteta Marina Manfro sobre o projeto. Ela expôs algumas das modificações que serão feitas e tentou amenizar as mudanças que devem acontecer na paisagem urbana da orla: “no setor Docas, terá três torres comerciais, que não exploram toda a área permitida. O empreendedor pensou no impacto, e o skyline do Centro fica condizente com a altura de prédios que já existe”, garantiu, mostrando uma imagem da paisagem. Ela também falou que o projeto compreende 10 praças, que serão revitalizadas, e que prédios abandonados, como um antigo frigorífico, servirão como centros de eventos.

Foto Guilherme Santos/Sul21 
Como todo o setor dos armazéns é tombado, não haverá grandes alterações, afirmou Marina. “Em nenhum deles será mudada a parte histórica, não serão muitas interferências. Eles devem ter destinações diversas, um será uma praça de alimentação”, afirmou, enquanto mostrava imagens de como os locais irão ficar. Durante sua fala, os integrantes de grupos contrários ao projeto, os quais lotavam o Plenarinho, a interrompiam criticando o projeto. Quando ela mencionou o centro comercial que será construído próximo ao Gasômetro, e afirmou que a construção “também não passa do nível determinado”, alguém exclamou: “e também não vai acontecer”, causando alvoroço. Enquanto isso, o vereador Valter Nagelstein (PMDB) filmava as pessoas que estavam na plateia, que começaram a criticá-lo.

Por diversas vezes, o titular da RP1, Daniel Nichelle, ameaçou encerrar a reunião mais cedo caso as críticas continuassem durante as falas. “O centro comercial teve parte do segundo andar removido para ficar mais baixo, e tem um terraço verde. É uma construção que dialoga com a Usina”, afirmou Marina, resultando em mais manifestações negativas por parte do público.

Delegados questionam projeto

Os delegados da RP1 puderam se manifestar logo após a apresentação. Para Fernando Bachi, que tem 80 anos, todos eles vividos na capital gaúcha, “o projeto precisa se adaptar às necessidades de Porto Alegre”. Já Felisberto Luisi mencionou que a paisagem urbana e a identidade da cidade precisam ser respeitadas, e questionou o fato de o arquiteto Jaime Lerner ter sido escolhido, por notório saber, para elaborar o projeto. “Ele falou que não é um shopping center, que é um centro de compras, isso é um eufemismo. Queremos que a nossa cidade seja respeitada, não podemos admitir que as coisas sejam feitas com base no capital”, afirmou o delegado.

Foto Eduino de Mattos 
Para Ana Lucia Lucas, o que foi apresentado “não é um projeto”. “Estão nos mostrando um ‘projeto de figurinha’. Eu quero saber os custos, e quero saber quando começa e quando termina”, constatou. O conselheiro Ibirá Lucas foi quem primeiro sugeriu a realização da consulta pública, como um encaminhamento que deve ser votado pela RP1 no próximo encontro. “Isso não é um projeto, que teria que ter toda uma documentação técnica necessária, com plantas, memorial descritivo, comparação do grau de limite da altura. Eu não considero isso uma apresentação de EVU e proponho que façamos uma consulta pública”, afirmou. Depois dele, outros delegados também defenderam a realização dessa consulta.

O delegado e vice-presidente da Associação Comunitária do Centro Histórico, Paulo Guarnieri, trouxe preocupações levantadas em reuniões da entidade, como o impacto no tráfego, visto que o bairro já é alvo de engarrafamentos constantes. “E o impacto no comércio da região? O Centro já é um shopping a céu aberto, existe comércio local. Ao mesmo tempo, temos muitos edifícios comerciais desocupados, a rede hoteleira em seu melhor momento fica com 50% das vagas ocupadas. O projeto não estaria criando uma concorrência?”, questionou. Após as falas dos delegados, Daniel mencionou que o fórum tem possibilidade de questionar apenas os aspectos urbanísticos, e não questões financeiras.

Polarização

Em seguida, a palavra foi aberta para participantes da plateia que não fossem delegados e quisessem se manifestar, com cinco inscrições para os que eram a favor do projeto e cinco para os que eram contra. O primeiro a falar foi Newton Motta, presidente da Associação Comercial de Porto Alegre, que afirmou que a grande maioria dos comerciantes era a favor do empreendimento, porque acreditam que irá gerar um maior fluxo de pessoas na região. Já Sílvio Jardim, do coletivo A Cidade que Queremos, questionou o valor dos investimentos públicos considerando que a área sofreu com alagamentos no ano passado, durante períodos de muita chuva em que o Guaíba transbordou.

Foto Eduino de Mattos
Delegados se manifestaram, em sua maioria, com críticas ao projeto

O presidente da sucursal gaúcha do Instituto dos Arquitetos do Brasil, Tiago Holzmann da Silva, se solidarizou com a colega que fez a apresentação, mencionando que é impossível fazer um bom projeto quando “o cliente é ruim”. “O problema desse projeto é que não houve uma licitação do projeto urbanístico, mas sim do financeiro. Isso que foi apresentado não cabe naquele local, o que cabe é uma revitalização dos armazéns e a abertura da área para a população”, declarou, sob aplausos. Ele ainda questionou a validade legal do projeto, visto que a Lei Complementar 638/2010 autorizava a construção de espigões de até 100 metros para empresas que iniciassem suas obras até o final de 2012, o que não ocorreu neste caso. “Há uma série de vícios no processo”, colocou Tiago.

A reunião foi encerrada com gritos de “não vai ter shopping”. O CMDUA precisa aprovar o posicionamento da Prefeitura, que já aprovou o EVU após análise das secretarias, para que o empreendedor possa receber as licenças necessárias para começar as obras. Os delegados da RP1 devem votar, em uma próxima reunião, o encaminhamento de realizar consulta pública, a qual, caso aprovada, ainda deve ser levada ao Conselho pelo representante.

Fonte: Portal Sul21