sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Estudantes defendem ocupações em reunião com Reitoria: ‘um semestre não vale 20 anos de congelamento’

Foto: Maia Rubim/Sul21
Reitoria se reúne no ILEA, Campus do Vale, com estudantes que ocupam prédios da UFRGS

Por Luís Eduardo Gomes/Sul21

Estudantes e Reitoria da Universidade Federal Rio Grande do Sul (UFRGS) se reuniram na manhã desta sexta-feira (18), no Campus do Vale, para definir os rumos das ocupações na universidade. Pressionada, inclusive judicialmente, por movimentos que defendem a desocupação de prédios e a retomada imediata das aulas, havia a expectativa de que a administração da instituição pudesse pedir o fim do movimento estudantil ou uma mudança em seus métodos. Porém, relatos do encontro, realizado a portas fechadas, dão conta de que não houve um pedido oficial para a desocupação. Os estudantes, por sua vez, afirmam que não se desmobilizarão diante de pressões e continuarão seu movimento até que a PEC 55 (antiga 241 na Câmara) seja votada no Senado. As ocupações na UFRGS foram iniciadas no dia 26 de outubro, pelo Instituto de Letras, e já alcançam mais de 30 cursos.

Oficialmente, a reunião foi convocada pela Reitoria para discutir a “a necessidade de serem preservados os direitos individuais e coletivos e a necessidade de que sejam evitados os riscos e consequências da judicialização” das ocupações na universidade. Segundo relatos colhidos pela reportagem, durante o encontro, a Reitoria, representada por Suzi Alves Camey, da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis, teria manifestado apoio às ocupações, mas abordado a necessidade de os estudantes reverem o método adotado e abrirem uma espaço maior de diálogo com o restante da comunidade universitária.

Foto: Maia Rubim/Sul21
Após encerramento do encontro, estudantes que estiveram presentes relataram que a reunião foi encerrada sem nenhuma conclusão. Diferentemente do que fora aventado anteriormente, os estudantes não foram pressionados para iniciar um processo de desocupação, mas sim tiveram a oportunidade de falar e fazer relatos sobre o movimento estudantil. Integrantes de todos os cursos e unidades ocupados teriam tido a oportunidade de se manifestar. Esses relatos devem agora ser levados ao reitor Rui Carlos Oppermann, que tomará uma posição oficial a respeito das ocupações.

Ao longo da manhã, um grande grupo de estudantes se reuniu diante do prédio do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados (ILEA), onde aconteceu o encontro, para um ato de apoio às ocupações, no qual, apesar da chuva fina, alternavam sem trégua músicas e palavras de ordem em defesa dos movimentos. “A nossa luta unificou, é estudante junto com o trabalhador”, cantaram, por exemplo, no momento em que os representantes da Reitoria atenderam às reivindicações dos alunos para que funcionários de uma empresa terceirizada pela UFRGS pudessem participar do início da reunião para fazer um relato sobre a precariedade das condições de trabalho que enfrentam.

Foto: Maia Rubim/Sul21
Estudantes mantiveram uma ‘banda’ em frente ao ILEA durante todo o período da reunião

Ainda que não quisessem se identificar individualmente e salientando que as ocupações não possuem líderes que possam falar sobre elas – como chegou a ser veiculado em parte da imprensa -, mas têm caráter horizontal, estudantes que ali se encontravam conversaram com a reportagem sobre a recepção que o movimento tem recebido nas últimas semanas e sobre as pressões para desocuparem que têm enfrentado de parte dos alunos contrários à suspensão das aulas, mas também de professores e setores administrativos que desejam ver suas unidades funcionando normalmente.

No caso do Instituto de Filosofia e Ciências Humanos (IFCH), cuja ocupação foi aprovada no dia 31 de outubro, os estudantes relatam que têm recebido apoio de grande parte da comunidade universitária dos cursos de História, Ciências Sociais, Filosofia e Políticas Públicas. Por outro lado, salientam que tensões surgiram, especialmente no início da ocupação, com alunos e docentes de outras unidades que têm aulas dentro do prédio do IFCH, como algumas engenharias. No entanto, dizem que este movimento pela desocupação tem diminuído nos últimos dias e, a partir do diálogo, tem se conseguido reduzir as tensões.

“A gente reforça que é uma ocupação de prédios, não só de cursos. A gente quer paralisar os prédios, o funcionamento, porque no nosso entendimento isso não deve ser mantido enquanto estiver em trâmite essas medidas que são completamente absurdas para o funcionamento saudável de qualquer instituição de ensino público”, afirma um aluno da comissão de comunicação da ocupação do IFCH*. “A gente sempre tenta o diálogo para mostrar que um semestre não vale os 20 anos de congelamento, não vale todas as perdas de bolsa de permanência na universidade e todos os projetos de pesquisa e demais projetos feitos dentro da universidade”, complementa.

Foto: Maia Rubim/Sul21
Já uma integrante* da ocupação do Instituto de Geociências (IGEO) salienta que uma das principais conquistas do movimento estudantil até agora é justamente conseguir ampliar o conhecimento sobre o que é a PEC 241/55, principal alvo de críticas da ocupação, e de quais impactos ela trará para a sociedade e para as universidades públicas caso seja aprovada.

Alunos aproveitam as ocupações para difundir as informações sobre os impactos da PEC

Ela salienta que as ocupações têm promovido aulas públicas sobre a PEC e também sobre outras medidas propostas pelo governo para a educação, como a MP 746 (a chamada Reforma do Ensino Médio), contando com a participação de alunos da Faculdade de Economia e também aproveitando o estudo realizado pela própria Reitoria da universidade para falar sobre os impactos econômicos das medidas.

“Eu tinha uma ideia de como a PEC funcionava, dessa questão do congelamento e tudo mais. Mas, depois que a gente se organizou e começou a fazer as atividades, tudo começou a ser linkado de uma maneira bem mais completa. Quem está de fato participando das atividades está sabendo bem sobre a PEC”, afirma a estudante, que também não quis se identificar. “Acho que ele que não está sabendo o que é a PEC”, ironiza ela, quando questionada sobre as críticas do presidente Michel Temer de que os estudantes não sabem porque estão protestando contra a proposta.

Foto: Maia Rubim/Sul21
A estudante ainda afirma que os integrantes das ocupações estão realizando um “trabalho de base”, de dialogar dentro de ônibus, entregar panfletos, ajudar a divulgar informações sobre os motivos do movimento estudantil. Ela tem explicado, por exemplo, que o IGEO atualmente tem verbas para saídas de campo e pesquisas que provavelmente serão cortadas caso a PEC seja aprovada. “Se a gente não se mobilizar, não se reunir, não debater, a gente não ia saber de outra maneira. A princípio, eu vou me formar no ano que vem, eu iria sair da universidade sem saber metade das coisas que eu tive em aulas abertas”, afirma.

Na mesma linha, membros da ocupação do curso de Biologia, a única da porção norte do Campus do Vale, salientam também que tem sido promovidas diversas atividades sobre a PEC, mas também sobre a própria legalidade do movimento. A ocupação da Biologia também tem pautado suas ações com o tema ambiental e contra políticas e mudanças propostas pelo governo estadual de José Ivo Sartori para a área. São, por exemplo, contrários à extinção da Fundação Zoobotânica (FZB).
Estudantes da Biologia afirmam ainda que não registraram nenhuma forma de pressão física para o fim da sua ocupação, iniciada há 10 dias, mas relatam que parte de professores e da administração do curso tentam “coagi-los” a dar fim ao movimento.

Estudantes afirmam, porém, que alguns grupos contrários às ocupações têm feito tentativas de desocupação e forçado a entrada nos prédios para aulas. Em geral, seriam pessoas vinculadas a unidades que não tiveram ocupações aprovadas ou ao movimento Desocupa, que teria ligações com o Movimento Brasil Livre (MBL). Integrantes do Desocupa com frequência seriam vistos circulando e tirando fotos nas ocupações e em atividades realizadas por estas.

Greve dos professores

Foto: Maia Rubim/Sul21
A grande novidade desta semana na UFRGS foi o início da greve de parte do corpo docente. Em assembleia convocada pela Seção Sindical Andes/UFRGS, da qual também participaram professores vinculados a Adufrgs e independentes, aprovaram pela entrada em greve. Segundo Mathias Luce, professor do IFCH e presidente da entidade na universidade, mais de 140 professores, de 19 das 26 unidades da UFRGS, votaram pela paralisação e suspensão das aulas, posição que já tinha sido adotada pelos corpos docentes da Faculdade de Educação (Faced), do Departamento de História, do Instituto de Letras, do Instituto de Artes e da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança (Esefid).

Luce afirma que o Andes já tinha tomado posição anteriormente a favor das ocupações estudantis, as reconhecendo como “forma análoga de greve estudantil”. Ele também diz que os professores devem agora procurar a Reitoria para definir os rumos do calendário acadêmico e para que ela reconheça a decisão das unidades que aprovaram a paridade de votos entre professores, funcionários e estudantes em suas decisões internas.

Por outro lado, oficialmente, a Adufrgs afirma que não aderiu à greve e que o tema será discutido em uma assembleia marcada para o dia 23 de novembro.

*Os estudantes só aceitaram das entrevistas na condição de que seus nomes fossem preservados, com o argumento de que falavam em nome das ocupações que representavam e não deles mesmos.

Fonte: Portal Sul21

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