terça-feira, 29 de novembro de 2016

Comunidade e Funcionários da Fundação Zoobotânica se unem em abraço coletivo à instituição e em protesto à extinção

A vereadora Sofia Cavedon (PT) esteve presente no ato e está no apoio às lutadoras e aos lutadores que resistem aos ataques à Democracia e aos Direitos dos e das Trabalhadoras.
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Por Fernanda Canofre/Sul21

Foto Maia Rubim/Sul21
Centenas de pessoas, todas vestindo camiseta branca dizendo “ameaçada de extinção”, realizaram um abraço coletivo em torno da Fundação Zoobotânica (FZB), na manhã desta terça-feira (29), em Porto Alegre. O protesto é uma forma de chamar a atenção contra a extinção da fundação – uma das nove que seriam cortadas, segundo o pacote do governo José Ivo Sartori (PMDB) apresentado na semana passada.

No ano passado, o governo já havia tentando propor a extinção da FZB, como medida de corte de gastos, com o PL 300/2015. Protestos de funcionários e ambientalistas, porém, colocaram pressão nos deputados e a pauta travou na Assembleia Legislativa. Depois de demitir o presidente da Fundação, José Alberto Wenzel, sem nenhuma explicação, no início deste ano, o governo já sinalizava que tentaria a extinção mais uma vez.

“Agora ficou mais difícil, não só para nós, mas para outras fundações que estão envolvidas também. Essas fundações também são importantes para a gestão do Estado, é um erro muito grande do governador esse pacote”, afirma Josy Matos, pesquisadora da FZB e presidente da associação de funcionários. Segundo ela, cerca de 200 pessoas perdem seus empregos com o fechamento da Fundação.

Foto Maia Rubim/Sul21
A extinção de um órgão como a Fundação Zoobotânica pode afetar toda a população do Rio Grande do Sul. Ainda que muita gente não saiba. Entre os serviços prestados pela FZB, além das pesquisas, estão os licenciamentos ambientais e a criação de soros anti-ofídicos com venenos de serpentes nativas da região sul do país. Atualmente, o serviço é realizado apenas pela Fundação, aqui, e pelo Instituto Butantã, em São Paulo.

Licenças ambientais poderiam pesar aos cofres do Estado

Segundo alguns dos funcionários que protestavam no local, nem o governo, nem a Secretaria de Meio-Ambiente conversaram com os funcionários da Fundação, antes de apresentar a proposta. Alguns dos funcionários que participaram do abraço coletivo chegaram a mencionar que a volta da pauta poderia estar ligada à posição contrária da classe ao PL 145/2016, que deve ser votado nesta terça na Assembleia e trata da política agrícola para as florestas plantadas.

Segundo dados levantados pelos funcionários, nos últimos cinco anos, a FZB levantou R$ 3 milhões em pesquisa: conseguiu captar R$ 884 milhões através de dois projetos internacionais e ainda barateou custos de serviços que terceirizados – como o caso das licenças ambientais – custariam mais ao Estado. Um dos números apresentadas como exemplo pelo grupo, referente aos planos de manejo do Parque Estadual Delta do Jacuí, diz que enquanto o custo do trabalho pela FZB foi de R$ 176 mil, por uma área de 14 mil hectares; com uma empresa privada, o mesmo trabalho, em uma área de 8 mil hectares saiu por R$ 948 mil. Quase 5 vezes o valor da fundação, por praticamente metade da área.

Na realização de estudos de zoneamento para licenciamento de parques eólicos, por exemplo, a Fundação ajudou a Fepam a arrecadar uma média de R$ 3 milhões por ano.

Coleção de plantas do Jardim Botânico em risco

Foto Maia Rubim/Sul21
O Jardim Botânico, que funciona junto à Fundação, também está sob ameaça. Nele, mais de 1.500 espécies de plantas, 5 mil exemplares servem como uma enciclopédia viva a estudantes de Biologia de todo o Estado. Todos os ecossistemas do Rio Grande do Sul estão representados na coleção, que é patrimônio do Estado, mas não tem garantias de seguimento após a extinção.

Paulo César Gross, jardineiro dentro da FZB há 27 anos, conta que quando criança costumava visitar o Jardim Botânico junto com o pai. Agora, vê a instituição prestes a fechar as portas depois de 61 anos de atividades.

“É um história que está se perdendo. Toda a história do Jardim Botânico de manutenção das plantas está se perdendo, por incompetência da secretária que não conhece”, diz ele. “O sentimento que a gente tem é que vai ficar abandonado. É de tristeza pelo emprego, mas mais ainda pelo parque, pelas coleção, pela história que esse lugar tem”.

Foto Maia Rubim/Sul21
A ideia apresentada pelo governo Sartori é substituir os funcionários da FZB, por seis funcionários ligados à Secretaria de Meio-Ambiente e Desenvolvimento Sustentável apenas para realização de serviços de manutenção da coleção de plantas.

“A secretária do Meio Ambiente (Ana Pellini) está dizendo que a Secretaria vai assumir as nossas funções, não tem a menor condição. Nós somos pesquisadores, doutores, todos muito bem treinados para fazer esse trabalho que fazemos. Temos coleções vivas, representantes de todas as espécies do Rio Grande do Sul, e essas coleções têm que ser cuidadas por especialistas. Existem normas federais para esse cuidado”, analisa Josy Matos.

Durante o abraço, os funcionários da fundação pararam por poucos minutos o tráfego na Rua Dr. Salvador França e foram apoiados pelos motoristas que passavam. “Estamos na luta, a comunidade e a população estão do nosso lado”, diz Josy.

Fonte: Portal Sul21