sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

“É impossível ter democracia com esse oligopólio da comunicação”, afirma Franklin Martins

Foto LRM Export
O jornalista, ex-ministro da Secretaria de Comunicações do governo Lula, Franklin Martins, não quer reduzir e amenizar aquilo que aconteceu ou está em processo desde que as eleições de 2014 terminaram com a vitória da presidente eleita Dilma Rousseff. Aquilo foi e é um golpe. E o inconfessável: Franklin Martins teve a humildade de dizer que não esperava. Mas fiquemos atentos para a tese que emergiu do Painel “Comunicação, Democracia e Resistência”, realizado na noite desta quinta-feira (1º), encerramento do primeiro dia do Seminário Estadual, no Teatro Dante Barone, da Assembleia Legislativa.

Segundo ele, está dado que o golpe ocorreu pelos acertos do governo do ciclo Lula e Dilma, por uma elite descompromissada em melhorar a vida do povo brasileiro e pior, sem identidade com o país. E também pelos erros cometidos pelo campo progressista, o golpeado. Erros que não foram poucos. Como “franco atirador”, Franklin fez uma ponderação: a vida não está fácil para os golpistas. Todos esses ataques aos direitos dos trabalhadores podem cobrar um preço alto dos partidos de direita. Nada é maior, para Franklin, do que a experiência de mudar de vida para melhor que o povo brasileiro teve no ciclo de 13 anos e meio de governos do PT.

Franklin propôs um percurso para que possamos entender o papel desempenhado pelos meios de comunicação de massa no golpe. Emanam discursos que naturalizam o que a elite brasileira, essa que deu o golpe e o toca adiante, pensa. Para essa elite, o povo brasileiro não é patrimônio do país. Sua ética é predatória, de fazer a gestão do país para benefício de um terço da população. O papel da grande mídia é naturalizar esses discursos de vira-latismo, fazendo com que as políticas públicas, como o Bolsa Família, a política de cotas, passem a ser percebidos como instâncias de discriminação social.

“Para eles, para esta elite, falta de serviços públicos, é natural que não tenha. O natural é reduzir o tamanho do Estado. Reprimir o povo também é natural, se não entram na casa da gente. É natural reduzir o tamanho da importância do país. O Bolsa Família é o bolsa esmola. Aumento do salário mínimo real quebra o país. Fortalecer o consumo interno, dinamizar a economia, não é natural para eles. Para eles, o Brasil é o quintal dos Estados Unidos. O resto do país tem que ser o quintal de São Paulo”, argumentou Franklin.

O jornalista chamou a a atenção para as origens do golpe. A eleição de 2014 é o marco de uma expectativa que os golpistas tinham e que não se traduziu nas urnas. De fato. Aécio Neves perdeu a eleição no segundo turno para a Dilma, em outubro, depois que o avião do candidato Eduardo Campos (PSB) caiu em agosto e emergiu a figura de Marina Silva como candidata progressista.

A vitória de Dilma pode ser considerada uma vitória da resistência a partir de uma experiência prática de uma grande parcela da população brasileira de melhora de vida. “Nas eleições de 2014, a opção era entre o muda mais ou o volta atrás. Eles foram derrotados e não aceitaram.”

Janela de oportunidade e erros

Se os governos do PT melhoraram a vida de milhões de pessoas e, basicamente, o golpe foi dado pelas razões acima expostas, por que não houve reação popular para manter Dilma no comando? Há, segundo Franklin Martins, dois fatores fundamentais para que o golpe se estruturasse. Além da naturalização das conquistas e do apagamento da importância das políticas públicas, com a ajuda fundamental da grande mídia, Franklin aponta que os golpistas enxergaram uma janela de oportunidades para o golpe a partir de quatro grandes e fundamentais erros cometidos pelo campo progressista.

Franklin apontou os últimos anos do ciclo Lula-Dilma como aqueles em que o campo progressista abdicou da luta política. Assim, os golpistas puderam modificar a agenda de conquistas e a melhora das condições de vida para a agenda dos malfeitos. O argumento de Franklin é que 2014 começou com 4,8% de desemprego, quer dizer, uma economia em pleno desenvolvimento e sólida. “Quem aceita a agenda do adversário, já perdeu a luta política. Não perdemos a eleição porque se percebeu que era indispensável fazer a disputa. Era fazer mais ou retroceder. O projeto estava em risco e as pessoas se mobilizaram na eleição de 2014. Depois, não travamos a luta política com a intensidade que deveríamos travar”, diagnosticou.

O segundo erro que Franklin apontou decorre de uma vitória da narrativa que naturalizou a corrupção como parte integrante da democracia e marginalizou a política. Há, no Brasil, um sistema político promíscuo. Agentes políticos, a própria política e financiadores de campanha não podem mais ser dissociados. “Não aceito isso. Muitos se acomodaram diante da narrativa da grande mídia para a aceitação da ideia de que a promiscuidade faz parte da democracia. Faz parte da democracia atrasada. No nosso sistema político, o dinheiro prevalece de uma forma brutal”, disse Franklin.

Aceitar que quatro ou cinco grandes grupos de comunicação dirijam o país e façam o que bem entendem com a opinião pública foi o terceiro grande erro do campo progressista, na visão de Franklin Martins. Ele conta que, quando foi convidado por Lula a participar do governo, sugeriu que o presidente deveria disputar a narrativa de seu governo progressista nos meios de comunicação de massa. Deveria dar entrevistas, explicar os programas sociais, onde havia mais audiência e regular a mídia.

O tema não foi enfrentado como deveria. Franklin vê como positiva a realização da Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) em 2013, mas não tem explicações para a o fato de a proposta de regulação da mídia eletrônica que deixou com o governo Dilma não ter prosperado. “Sou um moderado. E aprendi muito de comunicação pública no governo. Sou a favor da regulação da telefonia e da radiodifusão porque são concessões públicas. Esses grupos não cumprem a lei, e o Estado assiste a isso passivamente. Quem defende a necessidade de regulação é satanizado. Estados Unidos e Europa proíbem a propriedade cruzada. Quem tem rádio, não pode ter TV ou jornal. No Brasil, isso é permitido. É para ter mais voz. Isso não passa se o nosso campo político não aprender que é impossível ter democracia com esse oligopólio da comunicação”, explica.

Último erro

Antes de apresentar o quarto “erro gravíssimo” apontado por Franklin, ele citou alguns indicadores econômicos, que ele utilizou durante o painl para refletir sobre o discurso dos golpistas. Eles têm repetido à exaustão que deram o golpe porque os governos petistas gastaram demais e que precisam arrumar a casa por conta da crise criada pelos investimentos sociais. Franklin diz que essa tese não passa de “uma mentira”.

Os golpistas atribuem ao custo do trabalho a culpa por uma crise que tem antecedentes e causalidades em outra questão muito mais profunda. Trata-se do custo do capital, do câmbio e dos 13,75% em que a taxa de juros, a Selic, está. Sob inflação de cerca de 7% a 8%, o juro real que o país paga é de 7 a 8%.

Franklin comparou os mesmos indicadores nos Estados Unidos e na Europa em recessão. Há economias centrais que chegam a trabalhar com taxas de juros negativas. O impacto dessa alta das taxas de juros incide sobre o problema do pagamento de juros da dívida. Se, em 2015, o investimento no Bolsa Família foi de R$ 27 bilhões, o pagamento de juros da dívida atingiu R$ 397 bilhões. Este valor é quatro vezes superior ao que Dilma gastou com educação no mesmo ano e quatro vezes superior ao gasto com saúde. Em 2016, a previsão é que o pagamento dos juros da dívida consuma R$ 500 bilhões do orçamento, quase 20 vezes o que se investe no Bolsa Família. “O que eles querem agora é cortar investimentos sociais para pagar os rentistas”, acrescenta.

A esperança da experiência

Para ele, os golpistas foram muito longe e não podem recuar. Não têm toda essa coesão entre eles que se possa imaginar. Já há divergências, desavenças, e o principal: não foi um governo com legitimidade, eleito pelo voto, mas fruto de um golpe. Franklin se diz otimista com o futuro do campo progressista.

Por certo a derrota está dada, os erros, inclusive a soberba, foram decisivos para frear os avanços sociais obtidos nos últimos 12 anos. Porém, os primeiros seis meses de governo Temer mostram uma incapacidade política e de gestão de recuperar o país da crise. Franklin já vê o mergulho em uma depressão, com baixo crescimento econômico por conta do projeto de austeridade, o que, a médio prazo, pode fazer a experiência de melhora de vida de milhões de brasileiros bater na porta do golpe e perguntar por que, depois de tanto tempo, ainda culpam a Dilma se o desemprego e a crise aumentam?

Franklin se diz um otimista. “Apesar de tudo, sou a médio prazo, um otimista. Talvez seja um defeito meu. Aprendi quando militei contra a ditadura militar que tínhamos que lutar por um dia melhor que o outro. Não tínhamos a ilusão de derrubar o regime militar, mas a situação era tão ruim que a luta era por um dia melhor. Aprendi que quando a situação está horrível, tem que ver o que traz de energia para mudar lá na frente. Eles (os golpistas) não estão com essa bola toda. Nós temos que resistir na coisa de fundo que é a criação de um programa de recuperação econômica que tira da agenda o pagamento de juro da dívida para os bancos. Acho que o povo vai dar a volta por cima. Não sei quando”, disse ele.

É preciso que os sindicatos, os movimentos sociais se juntem, fortaleçam suas redes de comunicação e apostem em campanhas que demonstrem que o problema do Brasil não é investir na melhora da condição de vida do trabalhador. Segundo Franklin, essa narrativa precisa emergir para aproveitar, mais adiante, a falta de resposta dos golpistas para a queda de qualidade de vida de uma parcela muito significativa da população brasileira.

Ele encerrou o painel dizendo que “manchete de jornal não é mais forte que a experiência das pessoas. Precisamos reconstruir nossas pontes populares. Termino com algo que aprendi com o Darcy Ribeiro: Eles ganharam mas eu não queria estar no lugar de quem nos derrotou.”

Fonte: Portal da CUT/RS.

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