quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Experiência de Esquerda da Frente Ampla do Uruguai foi debatida com Sebastián Valdomir

Foto SindBancarios
Debate com deputado uruguaio propõe reflexão sobre unidade e construção de frente ampla no contexto de retrocesso brasileiro

Não se trata apenas de encontrar as respostas para mobilizar uma ação de partidos de esquerda e enfrentar, resistir e retomar os caminhos da luta por um modelo de sociedade capaz de não apenas combater a desigualdade social, mas de mudar o modo como se pensa a sociedade. É preciso fazer as perguntas e conhecer as experiências que construíram políticas que se tornaram meios de concretizar uma sociedade mais justa. E uma delas surgiu a partir de um debate na sede da Fetrafi-RS, na quinta-feira, 8/12. A esquerda precisa mudar, integrar-se para criar consenso programático e retomar seu papel de configuradora de políticas capazes de aprofundar uma experiência de participação popular.

Com promoção do Instituto Comunidade e apoios do SindBancários e da Fetrafi-RS, o painel  “Ampliar os caminhos da esquerda: a experiência uruguaia”, trouxe para a mesa a experiência da Frente Ampla do Uruguai, a partir do relato do deputado suplente na Câmara Uruguaia, o jornalista Sebastián Valdomir. A pergunta? Como unificar os partidos de esquerda em torno de uma agenda única de combate à reconversão neoliberal para avanços sociais que ampliem as conquistas recentes da experiência petista? O ex-deputado estadual, ex-prefeito de Porto Alegre, Raul Pont, comentou as propostas e o relato da experiência apresentados por Sebastián em pouco mais de duas horas de debates.

A palavra que emergiu parece óbvia. É preciso que os partidos de esquerda brasileiros constituam uma unidade programática que tenha como objetivo pensar uma agenda que amplie o alcance de programas sociais e se afaste da política eleitoral de conciliação, desenhada para vencer eleições. Proferir a palavra que fornece o caminho é mais fácil do que conciliar partidos de amplo espectro de experiências e visões programáticas distintas para uma sociedade tão diversificada e com tantos problemas como o Brasil. Na prática, a experiência uruguaia tem muito a ensinar a nós brasileiros que vivemos sob um golpe muito rápido, muito organizado e que está colocando em prática uma hegemonia política de terra arrasada, que cancela direitos e trabalhando em favor da elite financeira e social do país.

Foto SindBancarios
Sebastián falou da experiência da Frente Ampla do Uruguai. São 32 partidos e movimentos sociais que se uniram em torno de uma agenda a partir de certo momento histórico. Alguns anos são chave para compreender como, desde 2004, essa Frente Ampla consegue eleger presidentes para sucessivos mandatos federais e ter maioria no parlamento. Um dos marcos é 1973, quando começa a Ditadura Uruguaia. Entre 1989 e 1994, a experiência neoliberal não consegue vencer a crise mundial de 1998. Esfacelada a metodologia do arrocho e austeridade e o endeusamento do mercado como solução para tudo, uma janela de oportunidade se abriu para a reestruturação da Frente Ampla e levou à vitória em 2004.

Os partidos tradicionais, mais precisamente o Partido Colorado e o Partido Blanco, encolheram. Lideranças como José Mujica e Tabaré Vasquez emergiram como nomes mundiais. “Na década de 1990, a Frente ganhava as eleições no primeiro turno. Mas os partidos de direita se uniam e venciam no segundo. As décadas de 80 e 90 foram um momento chave para evoluir ao projeto político e fortalecer a militância. A crise de 2002 também foi outro momento chave. O enfoque da Frente Ampla para a saída da crise era e recuperação do setor produtivo”, explicou Sebastián.

Essa nova visão de ataque e solução para a crise no Uruguai contou com os ventos favoráveis da eleição de Lula em 2002, do Chavismo na Venezuela, e do início da era Kirschner na Argentina. O neoliberalismo fazia água na mesma proporção em que os projetos sociais de partidos de esquerda, com corte político na defesa dos trabalhadores, tratavam de redirecionar os investimentos públicos para combater a desigualdade. Programas como o Fome Zero, Luz para Todos e Minha Casa, Minha Vida são exemplos dessa guinada social, assim como valorização do salário mínimo para ampliar a base de consumo.

Questão programática

Mas como o Uruguai conseguiu estabelecer na agenda da população a importância do investimento público ante o individualismo neoliberal e a ideologia do mercado? Primeiro, é preciso dizer que foram criados Comitês Populares praticamente por bairros. Era ali no contato direto com a população, chamada a decidir e participar ativamente, que o apoio e o alicerce da maioria no parlamento começaram a serem formados. Sebastián reconhece que, mais de 20 anos depois da reconversão da Frente Ampla, esses comitês populares já não têm a mesma pegada política que já tiveram.

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Em parte, isso se deu em razão de algumas divergências políticas no centro da Frente Ampla do Uruguai. A prática política, as disputas partidárias, por assim dizer, costuma complicar a experiência de criação de políticas públicas. “Conseguir acordo com 32 movimentos sociais e partidos não é fácil. É um processo muito contraditório porque há muitas divergências e pode trazer um rebaixamento ao programa. Não é possível impor visão muito determinante. E houve grupos que deixaram a Frente por entenderem que não fazia mais sentido ficar se não conseguia colocar uma política no programa”, acrescentou Sebastián.

É preciso pensar a política, na visão do parlamentar uruguaio, de forma horizontal. Fazer emergir novas lideranças. Pensar que os meios de comunicação sociais, como as redes, precisam ser bem mais horizontalizados. E, também, tão importante quanto o dito acima: modificar a agenda. “A pobreza e a desigualdade exigem que se rebaixe um pouco o programa no sentido de que é preciso atacá-las com programas emergenciais num horizonte de modelo capitalista. No excessivo gradualismo, há um rebaixamento da política. Somos governo eleito duas vezes com maioria parlamentar. Qual é o limite? Ter um horizonte pós-capitalista de organizar a produção”, apontou.

O limite da política eleitoral

Eis outro ponto. Há que se considerar no horizonte da unidade um limite político eleitoral. E não se trata apenas de um limite que diga respeito à estrutura da própria frente, como ela funciona e constrói consensos. A massa muda. Há influências de todos os lados. Narrativas das mídias de grande porte, influências culturais, os efeitos que as próprias políticas públicas exercem sobre a população no futuro e o modo de uma geração que emerge em massa passa a pensar. E, claro, os adversários também entram em campo, têm as suas próprias estratégias e modos de compreender as vertentes culturais e seus cursos.

“Chega um momento que a política eleitoral cobra uma fatura de partidos como os nossos. O inimigo também joga e o adversário coloca seus jogadores em campo. Na Venezuela, por exemplo, há uma desestabilização pura e dura pelo Império (Estados Unidos). No Equador, ocorre o mesmo. Talvez, nosso quarto de hora esteja prestes a se concluir. Ou se reproduz o que se vem fazendo ou se faz uma nova abordagem política que seja mais periférica”, sustenta Sebastián.

O que não podemos esquecer, adverte Sebastián, é que vivemos um momento histórico em todo o mundo, aliás, a esquerda do mundo vive este momento. É preciso ampliar ainda mais e aprofundar políticas públicas que combatam a desigualdade social que recaiam sobre a periferia política. Ampliar a participação nas decisões, com plebiscitos e referendos, é fundamental. “Temos que pensar quais seriam as novas vias e pistas para imaginar esse novo momento histórico”, sugere.

Dois países diferentes na história

Ao comentar as observações do parlamentar uruguaio com quem dividiu a mesa, Raul Pont contou uma breve história de sua militância durante a Ditadura Militar no Brasil. E são diferenças cruciais, além da geografia e do tamanho dos dois países, para compreender o êxito da Frente Parlamentar do Uruguai e o golpe em que o Brasil está mergulhado desde que a presidenta Dilma Rousseff foi afastada pelo Senado em maio passado.

Foto SindBancarios

Raul lembrou os tempos em que viajava a Buenos Aires e a Montevidéu como militante estudantil e via a facilidade com que achava livros considerados subversivos proibido no Brasil entre 1964 e 1985, durante a Ditadura Militar, nas livrarias e bibliotecas. Podia comprá-los, carregá-los pelas ruas e lê-los onde quisesse. Há jornais de esquerda que são facilmente encontrados ainda hoje em qualquer banca de revista do centro da capital uruguaia ou em Buenos Aires, capital argentina. Com um detalhe: o Partido Comunista, que era ilegal no Brasil, tinha as suas próprias bancas de revistas e bibliotecas nas capitais dos dois países vizinhos. Só por essas histórias ilustradas é possível perceber as diferenças de tradição política e cultural.

“A experiência uruguaia não é exatamente a nossa. O Uruguai tem uma tradição de estabilidade política, de democracia burguesa muito mais forte que a nossa. Em plena Ditadura, havia racha no PCB e no PCdoB. A conversa deles era saber quanto vai de verba para a educação enquanto nós aqui lidávamos com a Arena. Logo em seguida teve o Golpe Militar. Em 1973, o Uruguai também entra”, observou Raul.

Outra questão que afasta as experiências de Brasil e Uruguai é a tradição de representação de partidos organizados, de imprensa e de frentes. Estas últimas tiveram vida curta no Brasil. “A nossa imprensa aqui sempre foi muito conservadora. No Uruguai, tinha jornais progressistas que podiam ser comprados em bancas. Nunca tivemos aqui experiência de plebiscitos e referendos. É uma experiência rica no Uruguai. Não se ganhava sempre. No caso brasileiro, nossa experiência eleitoral tem sido de partidos. Nunca tivemos experiência de frente com alguma durabilidade. Nosso desafio é saber como organizar algo mais duradouro ou uma frente de forma mais permanente”, comentou Raul.

Onda neoliberal e o desafio dos trabalhadores

O presidente do SindBancários, Everton Gimenis, propôs reflexão acerca do momento de retomada da onda neoliberal que varreu direitos dos trabalhadores no anos 1990 e que agora está sendo concluída pelo governo de Michel Temer em conluio com o Congresso Nacional. “Esse debate é muito importante. Todo mundo que fala em unidade no Brasil deste momento. Num setor isolado, não tem como enfrentar todos os ataques a direitos e retrocessos que estão sendo colocados pelo golpe. Essa experiência da Frente Ampla pode ser um exemplo para nós. Uma das primeiras experiências de unidade foi feita por sindicatos. A CUT é um exemplo de frente de trabalhadores”, ponderou Gimenis.

Diretor da Contraf-CUT, Fetrafi-RS e do SindBancários, o mediador do debate, Mauro Salles, tem defendido uma palavra de ordem para mobilizar trabalhadores nestes tempos de resistência ao golpe. “A unidade é o imperativo deste momento. Mas tem que ser uma unidade programática”, enfatizou.

Fonte: Imprensa SindBancários