terça-feira, 11 de julho de 2017

Atendimento em escola especial é prejudicado pela falta de professores

Foto Sandra Ilibio Braz
Escola Professor Lucena Borges, no Jardim Itu, atende crianças especiais

“Já conhecia a realidade da Professor Lucena e em todo o tempo que acompanho a educação municipal nunca havia visto uma situação como essa". Sofia Cavedon, presente à visita na escola.

Falta de professores, monitores e acessibilidade são as principais demandas relatadas por educadoras e funcionárias da Escola de Educação Municipal Especial (EMEEF) Professor Luiz Francisco Lucena Borges aos vereadores da Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Juventude (Cece) da Câmara Municipal de Porto Alegre na visita realizada na tarde desta terça-feira (11/7). Localizada no bairro Jardim Itu, a escola é uma das quatro do município incluídas na categoria “Especial” por atender alunos que possuem algum tipo de deficiência e já foi referência nesse tipo de ensino no Brasil.

Foto Ederson Nunes/CMPA
Com uma equipe de profissionais qualificados e contando com o apoio das famílias, a Professor Lucena atende 110 alunos, entre crianças e jovens com autismo e outras patologias associadas, divididos entre os cuidados de 30 professores. A diretora, Karla Wunder da Silva, relatou que, pelo grau de atenção que os alunos exigem, são disponibilizados dois professores por turma e que desde o início do ano faltam quatro docentes e duas monitoras na escola. Por isso, os professores estão fazendo banco de horas para conseguir atender todas as turmas, as diretoras estão acumulando funções, pois vão para as salas de aulas, e o atendimento de qualidade oferecido durante os 27 anos de fundação, não está mais tão qualificado. “Nós temos demandas internas que fogem da nossa capacidade de gerenciamento: não tem recurso humano, a verba não chega no prazo e a dispensa nunca esteve tão vazia”, afirmou.

Foto Ederson Nunes/CMPA
Além da falta de funcionários, ela informou à Cece que os R$ 7.024,00 enviados pelo Executivo trimestralmente chegam sempre no final do trimestre, não mais no início como era até o ano passado, dificultando a aquisição de produtos e materiais e a administração financeira já que a escola precisa receber o dinheiro para poder suprir suas necessidades. “Nós não estamos fazendo o nosso trabalho de dar conta dos alunos. O autismo que é mostrado na mídia não é o nosso: aqui temos alunos que só sabem se comunicar com o tato e o grito, usam fraldas, não conseguem se alimentar sozinhos e são propensos a ficarem desorganizados (expressão utilizada pelas educadoras para os casos de crise). Eles nunca ficam sozinhos”, explicou. Outro problema da escola é a falta de acessibilidade para os alunos cadeirantes: faltam rampas e as calçadas estão desniveladas.

A vice-diretora, Katiuscha Genro Bins, disse que 90% dos alunos é de baixa renda e mora em diversas regiões da grande Porto Alegre. Devido ao grau de atenção que eles necessitam, muitos não conseguem utilizar o transporte coletivo da cidade e necessitam de vans para fazer o deslocamento até a escola. Entretanto, estes veículos são pagos pela prefeitura. Atualmente, conforme a vice-diretora, apenas 10 alunos utilizam o serviço. Outros cinco estão sem frequentar a escola, aguardando a liberação do auxílio pela Prefeitura. Além disso, as passagens que eram disponibilizadas pela Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC) para que os cuidadores acompanhassem os alunos, não estão mais sendo entregue a algumas famílias e os estudantes não estão conseguindo ir até o local. Com essas dificuldades de deslocamento, muitos alunos acabam regredindo no tratamento, pois "a continuidade do trabalho é muito importante", declarou Katiuscha.

Foto Sandra Ilibio Braz
Ela expôs que desde o início do ano a escola tentou se reunir com a nova gestão do Executivo sem obter êxito. Quando conseguiram marcar uma reunião com a Secretaria Municipal de Educação (Smed) ouviram que não há nenhuma Lei Federal que garante a existência de escolas especiais e que elas continuam funcionando por vontade política, relataram as professoras. “Isso causou muito medo porque o Rio Grande do Sul é o único estado que mantém esse tipo de atendimento em escola pública. A gente sabe que é caro, mas é um investimento muito grande para os alunos que atendemos”.

Famílias

As mães presentes na escola contaram que, em alguns momentos, são acionadas para auxiliar professores e monitores porque faltam profissionais. Márcia Siqueira, mãe de um estudante de 11 anos, explanou que o filho frequenta a escola desde os cinco anos. “Mesmo com toda essa dificuldade a gente consegue ver a evolução deles e poderia ser maior se não tivesse essa carência de professores”. Ela também relatou a dificuldade de conseguir assistência fora da escola e discriminação que o filho sofre. Por fim, criticou o descaso do Executivo com a Emeef e disse que se sente muito indignada com toda essa situação.

Participaram também da visita os vereadores Tarciso Flecha Negra (PSD), Reginaldo Pujol (DEM) e Alvoni Medina (PRB). A intenção da Comissão é conhecer as outras três escolas de ensino especial de Porto Alegre.

Fonte: Portal da CMPA.