sexta-feira, 28 de julho de 2017

Ir embora pra onde? Por Moisés Mendes

Foto Rede Globo/Divulgação
Para onde se foge num momento como esse, se o vasto mundo, na hora da verdade, parece virar um minifúndio? Para onde se foge da quadrilha do jaburu, da empáfia impune de Aécio, do pato da Fiesp, da Justiça seletiva de Sergio Moro? Talvez o grande desejo dos que ameaçam ir embora seja mesmo o de ficar e resistir.

Todos os dias um conhecido nosso ameaça arrumar as malas e ir embora do Brasil. O Facebook tem relatos diários de quem está juntando a família e suas coisas para sumir. O desencanto contagia os de sempre, que parecem estar permanentemente frustrados, e agora pega também a classe média de esquerda atormentada pelo golpe, pela lenta morte da economia, pela violência e pela surpreendente capacidade de resistência dos golpistas.

Mas fugir pra onde? Para Portugal, onde todo mundo já tem um amigo que vive bem e para onde estaria indo Evaristo Costa, o apresentador do Jornal Hoje? Se até o Evaristo larga a Globo e se vai, por que não podemos ir atrás?

Chegou a hora de usar o passaporte europeu? De fazer o que a direita ameaçou que faria e não fez, depois da eleição de Lula em 2002? Toda a direita brasileira iria embora para Miami.

O movimento mais forte de migração dos perdedores, frustrados com os governos do PT e ressentidos com as cotas nas universidades, com o Bolsa Família e com a concorrência da classe C nos aviões, aconteceu mais tarde, a partir dos governos de Dilma.

A direita já não sabia como ganhar eleições, depois de perder oito em sequência, incluindo primeiros e segundos turnos, e quem podia ia embora. A Flórida foi loteada por esses anti-PTs que de lá ajudaram a articular o golpe.

Agora, parte das esquerdas ameaça se juntar a eles, não necessariamente nos Estados Unidos, mas em algum lugar muitas vezes imaginário. Não são jovens, são solteiros, ajuntados e casados quarentões ou cinquentões convencidos de que ficar aqui não dá mais.

Para onde se foge num momento assim, se o vasto mundo, na hora da verdade, parece virar um minifúndio? Na hora de arrumar as malas, percebe-se que, pela idade, pela falta de vigor físico e por pensar e titubear demais, perdeu-se o tempo certo de migrar.

Querer ir embora, para os nem tão jovens, significa deixar para trás algumas incertezas e ver pela frente a incerteza quase absoluta do exílio. Muitas vezes significa também deixar filhos já encaminhados e até netos, amigos, parentes, cachorros e hortas comunitárias.

A classe média atordoada se imagina na Austrália, na Nova Zelândia, na Espanha, até na Grécia em crise. Mas nunca no Peru, na Bolívia, no Chile, muito menos na Argentina. O sonho do brasileiro da classe média que deseja ir embora, e mais ameaça do que vai, nunca passa por paisagens latinas. Ir embora significa fugir pra longe.

No Facebook, há fugas anunciadas pela manhã, bem planejadas à tarde e desfeitas à noite. Tenta-se mesmo fugir da tentação de querer ficar, porque essa é a vontade mais forte.

A ameaça de ir embora é um ultimato à própria indecisão sobre o que se ganha ficando aqui. É também uma advertência aos que estão por perto e foram contagiados pela resignação geral.

Quem ameaça ir embora deseja punir quem fica. Se ninguém se mexe, me vou. Mas ir embora, para escapar dos horrores do golpe, da quadrilha do jaburu, da empáfia impune de Aécio, dos tucanos em geral, do pato da Fiesp, da Justiça seletiva de Sergio Moro e da indiferença dos ‘liberais’ com a masmorra de Curitiba significa abrir mão da possibilidade de estar aqui quando os golpistas tombarem e o país se reencontrar com a democracia.

Para a maioria dos que ameaçam, não há para onde fugir, porque o que eles querem mesmo é ficar. Não há fuga capaz de compensar a esperança de ver corruptos da direita na cadeia, mesmo que isso pareça a construção de mais uma ilusão.

Os que ameaçam ir embora poderiam começar a ameaçar ficar, para que se rompa o roteiro do golpe, que inclui a indução à fuga por parte dos que se sentiram derrotados.

A direita no governo, no Congresso, nas empresas, no Ministério Público e no Judiciário não pode se sentir tão confortável. A resposta aos golpistas deve fazer circular outra ameaça: vou ficar e resistir.

Artigo do jornalista Moisés Mendes publicado no Portal do Extra Classe.