quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Fim de universidades latino americanas representa submissão aos EUA, diz especialista

Desmontes na Unila e na Unilab vêm sendo denunciados por professores e pelo movimento estudantil

Por Júlia Dolce/Brasil de Fato

Os projetos integracionistas da Universidade Federal da Integração Latino Americana (Unila) e da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afrobrasileira (Unilab) estão sendo ameaçados pelo governo golpista de Michel Temer. Para professores, estudantes e pesquisadores do tema, os cortes e o plano de extinção dessas universidades estão relacionados ao interesse do novo governo na manutenção da hegemonia internacional.

É o que afirma Wagner Iglecias, professor do Programa de Pós Graduação em Integração Latino-Americana (Prolam) da Universidade de São Paulo (USP). "O projeto que hoje governa o Brasil é único para o continente, de integração subalterna, subordinada aos Estados Unidos da América (EUA). São projetos que reiteram o passo de séculos da América Latina, do ponto de vista econômico, político e cultural. Então ter centros de formação contra hegemônicos não é prioridade. Se efetivamente a Unila e Unilab vierem a ser descontinuados, isso não vai ser visto como algo ruim pelo governo, e sim algo desejável", opinou.

Segundo Wagner, a criação desses centros educativos fez parte de um projeto de integração regional em diferentes frentes, não apenas comercial e financeira, mas também logística, educacional e cultural. "A questão de uma universidade de integração latino americana, que aproxima esses conhecimentos, saberes, e cultura, é fundamental. É um projeto que pensava a criação de uma outra governança global, na qual o sul do mundo, os países pobres que foram colônias, pudessem ter uma presença maior do que tiveram nos últimos séculos", explicou.

Em um artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo nessa segunda-feira (31), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), e o diplomata Celso Amorim denunciaram o desmonte da Unila. "Não podemos permitir que os povos latino-americanos e caribenhos deixem de dispor de um ponto de encontro para seus jovens intelectuais, professores e pesquisadores. Não podemos voltar ao tempo em que o diálogo tinha que passar necessariamente por instituições norte-americanas ou europeias", escreveram.

Fundada em 2010 pelo então presidente Lula, a Unila vem se mobilizando, por meio de seu movimento estudantil e sindicato de professores e funcionários, contra uma emenda aditiva proposta pelo deputado federal Sérgio Souza (PMDB-PR) para a Medida Provisória 785/17. A emenda pede o fim da universidade integracionista para a formação de uma nova Universidade Federal do Oeste do Paraná, que teria seu projeto pedagógico fundado no desenvolvimento do agronegócio.

De acordo com o venezuelano Carlos Andrés Figueredo, estudante de ciências políticas e sociologia da Unila e integrante do movimento estudantil, a criação da universidade veio em um contexto de busca por autonomia. "Digamos que a proposta emerge de um contexto progressista, e até revolucionário para a região latino americana. Agora querem uma perda de autonomia e soberania, pactuada por uma elite oligárquica brasileira. Não há vontade política na manutenção da Unila, estamos presenciando um momento de retrocesso para os avanços sociais", afirmou.

Figueredo denunciou também o corte de auxílios para estudantes estrangeiros na Unila. "As bolsas já não são suficientes porque temos cortes impressionantes. Muitos estudantes não puderam voltar para seu país durante as férias por conta dos cortes", afirmou. Ele conta que os desmontes na universidade não são veiculados na grande imprensa por conta de preconceito com os estudantes. "Há uma cumplicidade da mídia, uma estigmatização local dos estudantes, que são vistos como um problema para a cidade", disse.

Já a Unilab, também fundada em 2010 pelo governo Lula, está resistindo contra um projeto de aditivo ao Processo Seletivo de Estudantes Estrangeiros, que foi instituído no dia 5 de julho pelo reitor Anastácio de Queiroz Sousa, e previa o fim de qualquer auxílio para estudantes internacionais. Após mobilizações estudantis e do Conselho Universitário, o aditivo foi revogado, mas as intenções do reitor ainda ameaçam os valores de cooperação internacional e educação afrocentrada que marcam o projeto da universidade.

A Unilab tem como premissa destinar 50% das vagas a alunos dos cinco países africanos falantes de língua portuguesa, além do Timor Leste, oferecendo auxílios para que tais estudantes se mantenham no Brasil. Atualmente, segundo Fábia Barbosa Ribeiro, Diretora Interina do Campus dos Malês da Unilab, localizado na Bahia, e Coordenadora do Curso de História, 90% dos alunos estrangeiros precisam do auxílio.

"Esse reitor é alinhado com o projeto de governo atual e simplesmente estabeleceu o aditivo. Ele fez isso à revelia do conselho universitário, na calada da noite. No dia seguinte houve protestos dos estudantes e o reitor foi acusado de agredir duas alunas brasileiras, chegou até a ser levado para a Polícia Federal. Em uma entrevista para um jornal português ele chegou a dizer que se o aditivo fosse revogado ele pediria exoneração do cargo de retiro, mas voltou atrás e não se exonerou", explicou Ribeiro.

Segundo a diretora, o Conselho Universitário da Unilab pede agora o esclarecimento da medida. "Nós reativamos uma Comissão de Orçamento para que se explique por que existe essa alegação de que os alunos estrangeiros são culpados pelo problema orçamentário, já que isso implica um golpe direto no projeto da Unilab, que é a integração com os alunos estrangeiros. Há uma série de movimentos que visam abalar esse projeto", afirmou.

Fonte: Portal Brasil de Fato.