quarta-feira, 2 de agosto de 2017

R$ 650,00 na conta - Por Guilherme Cassel*

Foto Elza Fiúza/ABr
Há dezoito meses o Governo Sartori atrasa e parcela os salários do funcionalismo público e, ainda por cima, segue pagando o décimo-terceiro salário de 2016 em suaves e demoradas doze vezes. Desta feita, a primeira parcela referente ao mês de julho será de míseros R$ 650,00. Uma vergonha e um fracasso. A cada mês as desculpas se repetem com um descaramento e um cinismo dignos das piores novelas mexicanas: a dívida com a União ainda não foi rolada, a arrecadação de tributos foi aquém do esperado, a economia brasileira está em crise, as privatizações não acontecem. Nada é culpa do governo. É como se a falta de dinheiro em caixa fosse obra única e exclusiva da vontade do espírito santo ou, quem sabe e como é sempre lembrado, responsabilidade do governo anterior. Tudo com uma cobertura condescendente da grande imprensa que não hesita em carimbar a situação como inevitável, chegando ao cúmulo de algumas vezes elogiar o esforço governamental de “colocar as contas em dia”.

É injustificável a desresponsabilização que o Governo do Estado se auto imputa. Ou esta economia que vai de mal a pior não é consequência direta do golpe que Sartori e sua turma apoiaram? Na verdade, a economia que eles ajudaram a colocar em marcha, não só está afundando o Rio Grande do Sul como jogando o país na maior recessão da sua história. A culpa é deles. São responsáveis sim. Quase dois anos após o golpe, todos os indicadores econômicos do país pioraram. Do país e do Rio Grande. Todos. E, enquanto isso, eles se preocupam apenas com duas coisas: blindar os corruptos do governo Temer para que não acabem na cadeia e acelerar processos de privatização.

Impressiona cada vez mais a fala do governo do Estado. E impressiona pela desfaçatez que, volta e meia, se confunde com o patético. Quase três anos depois de assumirem eles seguem resmungando e anunciando o caos para o dia de amanhã. Não há dia em que não afirmem que tudo vai piorar ainda mais. E nenhuma linha, nenhuma ideia, por mais vaga que seja, a respeito de um projeto de desenvolvimento econômico para o Estado. Diante das câmeras e dos microfones eles só suspiram, cruzam os braços, olham para os céus e reclamam da crise, como se não fossem eles também responsáveis por toda esta situação lamentável. Anunciam o desastre de amanhã, sabendo que quando é um governo que promove este tipo de anúncio ele sempre se autorrealiza.

Ainda agora, por esses dias, o Secretário da Fazenda apareceu nos jornais se queixando da vida, afirmando que a única salvação para o Estado é aderir ao malfadado Plano de Ajuste Fiscal proposto pela União, que oferece uma barrigada de três anos no pagamento da dívida. Reconhece que as condições de adesão ao plano são ruins, mas, segundo ele, não existe outra saída. Cá entre nós, trata-se de chantagem pura. O golpe de sempre: ou é isso ou será o caos, dizem eles. Transformam os funcionários públicos em reféns para aprovar na Assembleia Legislativa a adesão ao Plano de Ajuste que tem como contrapartida a venda de patrimônio público. O que querem, de fato, é vender a CEEE, a SULGAS, o Banrisul, o BRDE e o que mais aparecer pela frente.

Diante de tudo isso, é bom não esquecermos que o atual governo já aumentou a alíquota do ICMS, ampliou o limite de saques dos depósitos judiciais, antecipou créditos tributários da GM e cobrou dois bilhões de reais do Banrisul para manter no banco a folha de pagamento do funcionalismo. A pergunta que não quer calar é: como foi, então, que o governo anterior, sem essas condições financeiras favoráveis acima descritas, foi capaz de manter em dia o pagamento dos funcionários? Por certo não foi por mágica, nem por vontade do espírito santo. Gestão eficiente certamente é a melhor resposta. E gestão eficiente em um cenário econômico também difícil, sem aumento de impostos, sem o dinheiro no Banrisul, sem ampliar os limites legais dos saques dos depósitos judiciais e, ainda por cima concedendo reajustes salariais justos às categorias mais necessitadas.

Todos os dias nos jornais, nas rádios e nas televisões, somos alvejados com mensagens diretas ou subliminares afirmando que os partidos conservadores são mais eficientes na gestão da máquina pública. A austeridade fiscal tornou-se um mantra repetido “ad eternum” como uma qualidade que só acompanha os gestores de direita ou de centro. Por estupidez ou conveniência insistem em confundir economia com matemática. As experiências reais e vividas deveriam falar mais alto quando se avalia a eficiência dos governos. Ou será que não aprendemos nada com o endividamento irresponsável que a “gestão moderna” do Governo Britto nos deixou como herança? Ou ainda, com o completo desmonte e desaparelhamento do setor público patrocinado pela política sem noção do “déficit zero” durante o governo Yeda? Em um e outro caso, as consequências são as mesmas: não reajustam salários, pagam com atraso os funcionários, privatizam o que encontram pela frente, sucateiam a educação e a saúde, pioram o sistema de segurança pública, concedem benefícios fiscais para os amigos de sempre e propagandeiam contra o setor público.

Nada disso é invenção. Trata-se da história recente do nosso Estado. Assim como deve fazer parte da história e da nossa memória o fato de que nos governos de Olívio e de Tarso os salários nunca atrasaram, os reajustes necessários foram concedidos, a educação e a saúde foram valorizadas e não enfrentamos grandes crises na segurança pública. Mais: nestes dois governos os indicadores de emprego, de crescimento econômico e de renda são muito melhores quando comparados com os índices dos governos conservadores. E também foram governos que enfrentaram crises econômicas. Ou seja, é fácil comparar a eficiência dos dois tipos de gestão, basta um pouco de informação e honestidade intelectual.

Como canta o Paulinho da Viola, “as coisas estão no mundo, eu que preciso aprender”. E enquanto não aprendemos, seguimos ouvindo o Sartori e o Feltes anunciando que o pior ainda está por vir. E com R$ 650,00 no bolso.

*Guilherme Cassel, 60, é autor de “Contos de Solidão e Silêncios” (Ed. Bestiário – 2012) e “Jogo Jogado e Outras Histórias” (Ed. Libretos – 2016). Foi Ministro do Desenvolvimento Agrário (2005 – 2010) e é Auditor Fiscal, aposentado, da Secretaria da Fazenda RS.

Artigo publicado no Portal Sul21.