terça-feira, 27 de março de 2018

Entrevista com Sofia Cavedon: “Penso a cultura sempre unida à educação e à cidadania.”

Por Cristiano Goldschmidt

Foto Luiza Dorneles/CMPA
Nessa entrevista exclusiva, a vereadora Sofia Cavedon (PT) fala sobre o desmantelamento dos espaços culturais de Porto Alegre, da falta de investimentos nos grupos e nos artistas e do desinteresse de seus colegas vereadores com temas relacionados à cultura. As relações promíscuas entre políticos e empresários, o desmonte na educação municipal, com o desrespeito aos alunos, professores e comunidades, entre outros assuntos, também foram abordados.

1 – Vereadora Sofia, na sua opinião, o que deve ser prioridade numa gestão municipal?

Sofia: A prioridade é o modo de governar através do exercício da democracia participativa. Não há como pensar uma cidade melhor em qualidade de vida se essa não for o resultado da cidadania ativada em diálogo com os gestores. Daí resultam duas dimensões fundamentais: a prioridade do investimento responder ao que majoritariamente demanda a população, e de outro lado, o crescimento da consciência social, do sentimento de pertencimento e de corresponsabilidade com a cidade. Nesse jeito de pensar e encaminhar a cidade, temas fundamentais como o direito à cidade, à educação e à cultura, à saúde, aos direitos ambientais e humanos, serão necessariamente discutidos e se desdobrarão nas políticas públicas, a partir também da intencionalidade humanizadora, inclusiva e democratizadora do gestor ou da gestora.

2 – Como sabemos, o compromisso dos políticos deve ser com seus eleitores, e não com empresários e empresas que investem em suas campanhas. Como a senhora avalia as relações muitas vezes promíscuas entre políticos e empresários? 

Sofia: Uma deterioração da democracia. Pela Constituição Brasileira, todo o poder emana do povo e será exercido por ele diretamente e/ou por seus representantes. Esses últimos, portanto, devem referir-se ao conjunto dos cidadãos e cidadãs ao exercer o poder delegado pelo voto. Nem mesmo restringir-se aos seus eleitores é desejável. As bancadas suprapartidárias que defendem explicitamente setores ou grupos, como as religiosas, do armamento, do agronegócio, indicam esta distorção tanto por recursos que financiaram a campanha quanto por eleitores específicos. A defesa de ideias é legítima e necessária, mas não deve se impor ao todo através do poder econômico.

3 – Poderia nos explicar qual o papel de um vereador e de que forma os eleitores podem intervir em projetos ou decisões contrárias aos interesses da população?

Sofia: É um papel prioritariamente de proteção da soberania popular. Seja na fiscalização do cumprimento dos direitos previstos em lei ou de alargamento das mesmas para chegar a garanti-los; seja através da abertura de diferentes formas de participação direta na produção das políticas públicas, na decisão das prioridades da cidade e na mobilização para a interferência nos demais entes federados também. O Estado e a União acabam por decidir sobre a vida das pessoas por concentrarem grande parte do orçamento público, mas também pelas normas gerais e fundantes do Estado brasileiro, da proteção ao trabalho, à vida e ao desenvolvimento econômico. Por estarmos mais próximos aos cidadãos e cidadãs, nós vereadores temos uma grande responsabilidade na organização da população para exercer seu poder sobre essas esferas. E para que não se sintam impotentes diante das decisões do país. Audiências públicas, moções, formações, debates, informações sobre projetos em andamento, etc, são muitas as possibilidades de promoção da participação direta e de aprendizagem de cidadania.

4 – Porto Alegre está sofrendo com o desaparelhamento dos equipamentos culturais, a exemplo do Teatro de Câmara Túlio Piva, fechado há bastante tempo, e da Usina do Gasômetro, que deixou sem espaço para ensaios e apresentações diversos grupos teatrais e de dança. Como a senhora vem acompanhando essa situação?

Sofia: Eu amo a cultura, nas suas diferentes manifestações artísticas. Sou público permanente e ali me alimento para fazer a luta junto com a classe artística, com os produtores e militantes pela cultura. Penso a cultura sempre muito unida à educação e à cidadania. Desde que assumi como vereadora componho a Comissão de Educação, Cultura, Esporte, Lazer e Recreação, e através dela consigo pautar desde os espaços fechados até o orçamento. Mas como ali os partidos são diversos, apenas nos períodos em que a presidi é que senti mais efetividade, como quando liderei a elaboração da Lei do Artista de Rua, que estabeleceu um marco importante de respeito a esta expressão da cultura. Mas projetos como as Serenatas na frente dos espaços culturais, a Mostra de Artes Cênicas e Música do Teatro Glênio Peres (já na sua quarta edição), os Saraus da Sofia, que faço desde o primeiro mandato; a briga pelo espaço da Banda Municipal no Araújo Vianna e pela democratização do mesmo, são exemplares das muitas ações que proponho para dar força à luta de resistência cultural.

5 – Os constantes atrasos no pagamento dos projetos contemplados pelo FUMPROARTE tem desmotivado a classe artística e contribuído para que artistas e grupos desistam de pleitear o apoio em novos editais. Qual a previsão de investimentos da prefeitura de Porto Alegre para a área cultural em 2018, e de que maneira esse dinheiro está sendo aplicado?

Sofia: A previsão é pífia! A cultura, para o modelo Marchezan, é toda entregue ao patrocínio privado. Estamos lutando nesse momento para que o Conselho de Cultura seja efetivado e respeitado, que o Conselho Municipal do Livro e da Literatura seja reconstituído. Instrumentos que deveriam ser da democratização e da destinação de eventuais recursos. Tivemos que derrotar o veto do prefeito ao programa Adote um Escritor, exemplar da construção de escolas, escritores e editoras de uma política pública que realmente impulsiona a leitura e a circulação de livros.

6 – Como a senhora vê o engajamento dos seus colegas vereadores em pautas e projetos que contemplem as políticas públicas voltadas para a cultura de nossa cidade? Há alguma movimentação conjunta na Câmara de Vereadores para mudar o retrocesso atual?

Sofia: Temos poucos vereadores que atuam com cultura, pouquíssimos eu diria, como uma política pública que deva ser investida e ampliada. Conseguimos parceria na Frente em Defesa do Livro e da Leitura de quatro vereadores, em 36. No tema do hip hop costumam se envolver um pouco mais, por sua inserção comunitária, porém, há que se admitir que, em momentos de votação temos conseguido uma manifestação maior.

7 – No seu entendimento, a que se deve o analfabetismo cultural de parte da classe política? De que forma isso poderia ser mudado?

Sofia: A visão de que cultura é supérflua diante de tantas outras necessidades ainda prepondera na própria sociedade, e a representação política é resultado disso. A educação para fruir e produzir arte, que faz com que ela se torne essencial para uma vida prazerosa e de cidadania, poderia alterar a demanda da sociedade por cultura de qualidade. A oferta em larga escala de entretenimento, através da televisão em especial, alienante e degradante das relações humanas, induz o uso do tempo livre para o descanso na alienação, na distração que não perturba, que não reflexiona.  Além do acesso aos bens culturais de qualidade ser restrito pela distância, pelo preço e pelo pouco espaço nos meios de comunicação. Tudo isso produz representantes na democracia que não aprenderam amar a cultura como seu insumo diário, como parte da cesta básica, como alimento para a sobrevivência, como eu, por exemplo, tenho necessidade e busco.

8 – Que avaliação pode ser feita da atual gestão municipal no que diz respeito às políticas voltadas para a educação, em termos estruturais, de capacitação e valorização dos professores, e principalmente de acesso e permanência das crianças no ambiente escolar?

Sofia: Estamos diante de uma gestão privatizadora, do Estado mínimo, sem projeto pedagógico, gerencialista, autoritária. Desde que iniciou, resistimos à rotina escolar imposta pela secretaria, restringindo os horários das aulas, os horários das refeições e a quantidade de refeições(!), esvaziadas de sua dimensão pedagógica; resistimos aos rígidos parâmetros para a disposição do tempo escolar, impedindo movimentos que reinventam o cotidiano e as estratégias de aprendizagens; reagimos aos calendários impostos, sem escuta às comunidades escolares, restringindo o trabalho aos sábados, definindo início e final, independente da vida das famílias e de suas demandas, retirando do professor e da professora o tempo de planejamento coletivo e o tempo individual fora da escola, em vez de colocar-lhe desafios, aportes e suportes pedagógicos para a evolução;  rejeitamos a redução de projetos culturais e do turno integral, a marginalização e tentativa de extinção da educação de jovens e adultos, de desinvestimento em programas como o Adote um Escritor;   resistimos à destruição da carreira do magistério, que tanta qualificação trouxe ao corpo docente, à falta permanente de professores, aos ataques à Educação de Jovens e Adultos e à redução de recursos de manutenção e custeio. E ainda ao assédio permanente do prefeito e de seu secretário, que chamam os professores de corporativos e resistentes às mudanças “modernizadoras”, os acusam de maus resultados e de displicentes!

9 – Fale um pouco sobre o projeto de Lei Nº 209/17, de sua autoria, que prevê ações contra o machismo nas escolas da rede municipal de Porto Alegre.

Sofia: Ele nasceu de dois anos de debate e de reflexão com as comunidades escolares através da Procuradoria da Mulher na Câmara, que presidi nesse tempo, e de dois grandes Seminários relativos ao tema, bem como da formação da Rede de Educação e Gênero entre instituições que atuam na luta das mulheres e das escolas. Daí ficou muito clara a necessidade de dar suporte ao trabalho docente, estimular e investir na incorporação ao currículo de práticas e intervenções pedagógicas não sexistas – ausência nas políticas educacionais. São diretrizes para balizar o trabalho. Poderão servir tanto para a SMED como diretamente para as escolas pensarem seu currículo. Precisamos investir na formação de meninos e meninas igualitários, democráticos e sem preconceito!

10 – Pra finalizar, na sua opinião, o que precisa ser feito para atingirmos um nível de consciência coletiva no sentido de entendermos como prioridade investimentos em educação e cultura?

Sofia: A boa cultura conquista por si, só precisamos garantir que ela circule, toque nas rádios, ganhe espaço nas redes de TV, tenha salas, auditórios, teatros para investigar, produzir, apresentar-se. Precisamos defender e investir em meios de comunicação compromissados com essas áreas, como a TVE e a FM Cultura, em larga escala. Eu estou com um projeto de Lei tramitando que propõe que os espaços de espera nas instituições públicas ou conveniadas com o poder público passem em suas televisões programas desse tipo, em vez dos financiados pelo poder econômico que transformam o usuário dos serviços públicos em consumidores de lixo e de desejos de consumo. Mas a resistência dos vereadores defensores do livre comércio acima da vida está grande. Fundamentalmente, o que alteraria a consciência coletiva é a mudança do sistema político eleitoral para que a vontade popular não seja direcionada pelo financiamento privado das campanhas, pelo voto influenciado pelos donos dos meios de comunicação de massa, para que as pessoas elejam projetos de sociedade e não “salvadores da pátria”, então defendo o voto em lista partidária, alternada necessariamente homem/mulher. A aposta no aprofundamento da democracia e na educação cidadã é o caminho. Claro que uma depende da outra.

Publicada no Blog de Cristiano Goldschmidt.

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